Psicanálise e outras coisas

8

de
outubro

Ah! a tal de formação… Parte 1

Pensando bem, até que, teoricamente, a coisa não é tão complicada assim.

Primeiro, a pessoa procura um “Grupo de Formação”. Alguns se denominam “Institutos de Psicanálise”, outros têm nomes diferentes. A pessoa é ou não aceita, depois de preencher as exigências que podem variar muito de grupo para grupo. Uma vez dentro, ela deve seguir um programa de formação. Mas aí começam os problemas: existe psicanalista formado?… Quando alguém pode se considerar um psicanalista?

Como a profissão não é regulamentada, qualquer pessoa com ou sem formação pode se apresentar como um psicanalista, um título que no Brasil ainda carrega muito prestígio. Aqui, ir a um psiquiatra não dá muito ibope… mas ir a um psicanalista dá algum status…

De um modo geral a formação se baseia num tripé: Análise Pessoal, Seminários Teóricos e Análise sob Supervisão. Parece simples não é? Mas a coisa não é bem assim, e as perguntas vão logo aparecendo: A análise pessoal de um psicanalista em formação deve ser mais exigente e mais complexa do que a de um analisando comum? E ela poderá ser feita com qualquer analista ou só com analistas selecionados (“os melhores”) chamados “Analistas Didatas”?

E os Seminários? Eles devem abordar o corpo teórico que vem sendo formado desde Freud? Mas isto é muito vasto e por isso cada grupo tem os seus autores e as suas teorias prediletas, que geram enormes controvérsias e até inimizades entre os grupos. Geralmente os professores do grupo determinam os trabalhos que devem ser estudados. Mas, mais perguntas: Como esses professores são selecionados dentro dos grupos? Isso pode virar uma Torre de Babel dentro do que poderíamos chamar de “movimento psicanalítico”. Grupos privilegiam autores em detrimentos de outros, às vezes se transformando em seguidores fiéis de um autor só, rejeitando todos os demais. E ai do candidato quando ele não reza pela cartilha.

E as primeiras análises do candidato com seu analisando sob supervisão? Repararam esse nome interessante: “candidato”?  Seus supervisores devem ser selecionados? Por quem? Geralmente essas análises são (ou deveriam ser…) de baixo custo com o analisando sabendo que está fazendo análise com um candidato em formação, sob supervisão. Mas nem sempre á assim. Eu já conheci candidatos ambiciosos que cobravam mais do que os seus supervisores.

Além disso, tudo existe uma grande política institucional em cada grupo, geralmente uma briga de foice pelo poder, que, uma vez instalado, é difícil de mudar. Cada grupo acaba tendo um núcleo que o dirige e que é sempre muito respeitado, para não dizer temido. É sempre muito difícil, dentro da instituição, questionar os membros desse núcleo de dirigentes que assumiram o poder.

Acho que já deu para vocês sacarem como esse campo da formação é muito minado… Acho impossível descrever o que se passa em todos os grupos, espalhados pelo mundo, que se propõem a “formar” psicanalistas. Mas, de um modo geral, a gente poderia dizer que eles vão de extremo a extremo, com muitos no meio. Os mais conservadores se propõem a selecionar melhor os candidatos e a exigir que eles sejam psiquiatras ou psicólogos com evidências de talentos para exercer a profissão. Interessante notar que alguns Institutos chegam a dizer que é de certa importância o candidato ter passado por problemas emocionais pessoais, pois isso os motiva a entrar nessa profissão. No outro extremo existem grupos de formação que aceitam praticamente qualquer pessoa formada em curso superior, desde naturalmente que ela possa pagar. É lugar comum afirmar-se que “a formação é cara".

Até agora só falamos de formação. A psicanálise nunca entrou nas universidades e, como já disse, até hoje não é uma profissão legalmente regulamentada. Talvez, pela sua natureza, ela tenha mesmo de ser assim. Qualquer cidadão pode abrir seu consultório de psicanálise sem que isso fira nenhuma lei. Aliás, por causa do prestígio do nome, quase todos tratamentos psicológicos no Brasil hoje são apresentado como “psicanalíticos”.

Voltemos um pouco para a história. Como sabemos, Freud passou a sua vida ouvindo os seus pacientes e escrevendo sobre o que com eles foi descobrindo e imaginando sobre o funcionamento mental. Não entraremos aqui nas suas descobertas espetaculares que mudaram a percepção que nós hoje temos dos nós mesmos como sêres humanos.. Ele foi sendo rodeado de profissionais que se interessaram pelas suas descobertas. Eventualmente foi formada uma instituição de caráter universal: a IPA (International Psychoanalytical Society).

Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br.

4

de
agosto

A hora de parar… a análise

Tudo bem, tudo bem… o relacionamento com o analista vai indo de vento em popa. Ele continua sendo útil ao analisando, tentando entender e resolver seus problemas e dificuldades emocionais. Existe um laço de trabalho bem formado entre os dois. A análise está progredindo.

Às vezes uma análise vai bem até demais. Fica muito prazerosa para ambos os participantes, que juntos trabalham descobrindo aspectos até então inconscientes na vida mental do analisando (paralelamente isso também ocorre na vida mental do analista, apesar de nem sempre ser reconhecido…). Tenho para comigo que é impossível para um analista trabalhar com seu analisando sem trabalhar consigo mesmo, ao mesmo tempo. O Dr. Clarence Schulz de Baltimore um dia me disse que depois de uma sessão com um analisando, se ele não tivesse aprendido alguma coisa sobre si mesmo, provavelmente o mesmo teria acontecido com o seu paciente.

Mas, os dois participantes sabem que o relacionamento (será que existe mesmo um relacionamento ou tudo que ocorre entre eles são transferências e contratransferências?…) um dia vai terminar, isto é, o analisando não vai mais necessitar de fazer análise e de pagar o analista. Deverá chegar a hora de ele poder ir viver a sua vida sem esse ônus. Pelo menos essa é a teoria. Assim, as análises devem ser termináveis. Não vou entrar aqui nas análises interrompidas por sentimentos negativos não trabalhados entre os dois participantes.

Um paciente meu, que dirigia durante uma hora para vir ao consultório quatro vezes por semana, um dia chegou, depois de encontrar as dificuldades habituais em estacionar o seu carro, e assim que deitou no divã foi dizendo: “Você sabe doutor, eu acho que hoje eu poderia usar melhor esse tempo da análise… no meu trabalho e em coisas que estão me interessando mais”. Falou, mas não insistiu. Eu recebi a mensagem: sua análise estava chegando ao fim. Naquela sessão não comentamos mais sobre o assunto.

Umas dez sessões se passaram até que um dia, ele, no divã, me disse que estava mais do que nunca ficando ciente de quanto a sua análise lhe custava mensalmente (coisa que até então ele nunca tinha mencionado…) e que de repente começou a perceber tudo que poderia estar comprando com aquele dinheiro, caso a sua análise terminasse. Eu recebi essa mensagem da mesma maneira: estávamos nos aproximando do fim da sua análise. Mas, dessa vez, eu puxei mais o assunto e nós falamos abertamente sobre o fim de seu tratamento, agora que ele sentia que a sua vida estava sob controle e ele estava indo bem. Concordei que provavelmente poderíamos mesmo estar chegando ao fim de sua análise, mas não fui logo marcando um dia para o término. Os pacientes às vezes nos testam para saber se estamos querendo nos livrar deles, quando propõem terminar a análise. Convidei-o a observar o que lhe viria à mente nas próximas sessões.

Eventualmente concordamos com o término da análise e com a última sessão para dali a três meses. Esse paciente estava fazendo uma análise “clássica” (puxa, não vamos entrar nisso agora…), quatro vezes por semana, e eu não adotava o sistema de ir reduzindo o número de sessões semanais para terminar uma análise (psicoterapia é diferente…mas isso fica para depois…). Eu considerava isso uma atuação contra o fim das coisas, a perda, a morte. Continuamos nos encontrando com a mesma freqüência até o último dia, quando nos despedimos desejando boa sorte um ao outro.

Aí vem o inesperado! Em primeiro lugar, percebi como foi difícil para mim terminar a análise com aquele paciente. Havia um laço emocional formado entre nós, e quando ele não mais veio ao meu consultório eu senti a sua falta como uma grande perda. Aquilo não estava nos meus planos. E, como logo veremos, nem nos dele.

Anos depois, quando por acaso encontrei com esse paciente, ele me falou do enorme vazio que encontrou em sua vida sem as nossas quatro sessões de análise semanais. Me disse que levou anos para aceitar a perda, que foi muito mais forte do que ele esperava, mesmo quando achava que estava pronto para se separar de mim.

Tem mais, depois do término, em algumas raras ocasiões de stress esse paciente me procurou para uma ou duas sessões e de certa forma nós então sentimos que o relacionamento entre nós – analista/analisando – na realidade nunca iria terminar completamente. Estava alí para ficar.

É por isso que hoje eu penso que uma vez analista, sempre analista. Existem muito poucos trabalhos na literatura da psicanálise que tratam do destino do relacionamento entre analisando e analista depois do término da análise. Eu sempre tenho me interessado por este assunto, embora nunca tenha chegado a uma conclusão satisfatória sobre ele. O que ocorre com o relacionamento entre os participantes– se é que ele existe – no fim da análise?

Provavelmente não podemos generalizar e o término não deve ser igual para todos as análises. Imagino que ele deve variar segundo o grau de psicopatologia, por exemplo. Ou segundo a presença ou não de interesses comuns entre o analisando e o analista. Cada caso seria então um caso. Mas de qualquer maneira, para mim hoje é difícil acreditar que no término de uma análise cada participante possa seguir o seu destino sem que reste nada entre eles em termos de um relacionamento confiável. Conforme poderão perceber, eu não sou dos que acreditam que o lugar do analista “é o lugar do morto” e que ele não existe enquanto pessoa num relacionamento de trabalho com o seu analisando.

Lawrence Kubie, um psicanalista norte-americano de certo talento, um dia me disse numa comunicação pessoal que achava que os analisandos que terminavam uma análise deveriam ser atendidos em grupo por um outro analista para falar do término de suas análises. Uma idéia interessante…

Por outro lado, para tornar as coisas mais complexas e difíceis, eu já terminei analises de anos sem mobilizar muitos sentimentos em mim ou no meu analisando. Eu me lembro do casos que chegaram a ser três ou mais vezes por semana, mas que, quando terminados, me deram a sensação de não termos formado um laço emocional de confiança, como acontece com os outros. Procuro entender o porquê disso sem nunca encontrar uma resposta. Ficou faltando alguma coisa entre nós, difícil de se definir. Geralmente esses pacientes não me procuram no futuro, seja para uma visita ou para retomar umas sessões. E nós não sentimos uma grande perda quando separamos. É só uma sensação que eu tenho em certos casos. Mas, por quê?…

Quando eu morava em Baltimore, Maryland, USA eles contavam uma história do meu analista Dr. Francis McLaughlin (eu nunca lhe perguntei se isso era verdade…). Diziam que numa festa na Sociedade Psicanalítica local ele perguntou a alguns colegas quem era o psiquiatra tão inteligente e interessante que ele havia conhecido e que acabara de sair. Seus amigos surpresos lhe perguntaram se ele não lembrava que aquela pessoa havia sido seu analisando…

Gostaria de ter a opinião de vocês que já terminaram as suas análises. Como vocês lidaram e lidam com isso? Acho que isso seria uma discussão interessante sobre um tema tão pouco explorado mas que a meu ver continua sendo muito importante para todos nós, analistas e analisandos.

Márcio Vasconcelos Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

28

de
junho

Deus e o psicanalista…

Num determinado momento de minha carreira, eu estava terminando o tratamento psicanalítico de um rapaz solteiro de 33 anos, que já havia trabalhado e resolvido os seus maiores conflitos e estava se preparando para sair por aí para viver o seu futuro como todo o mundo, livre de suas neuroses.
Na medida em que íamos aproximando da data do término da análise, eu percebia que o meu analisando estava tendo dificuldades em se separar de mim e cada vez mais me falava das dificuldades emocionais de sua família de origem: seus pais e seus irmãos. Era mesmo uma família mentalmente não muito sadia, era muito sofrida, cada membro carregando a sua cruz. Mas eles não tinham procurado tratamento para as suas dificuldades e não estavam indo muito bem em suas vidas. Isso era muito doloroso para o meu analisando.
Ele, que já estava bem, pronto para enfrentar as vicissitudes de sua vida neste mundo sem as suas neuroses, se agarrava a mim, e, em cada sessão, falava de um membro de sua família com muito sofrimento. Depois de muitas sessões dedicadas aos seus familiares, nós dois descobrimos que ele estava esperando que eu, mesmo não tendo contato com a sua família, pudesse aliviar os sofrimentos dela.
Como isso não parecia ser possível dentro das minhas limitações, descobrimos que o analisando estava inconscientemente desejando que eu fosse Deus para aliviar o sofrimento da sua família (ou então um deus, capaz de aliviar o sofrimento da sua família). Ele se sentia culpado de estar bem, sabendo que ela, gente com quem havia crescido, estava indo de mal a pior por causa de suas neuroses e psicoses.
À medida que trabalhávamos a realidade de eu ser um simples mortal, portanto incapaz de aliviar o sofrimento daquelas pessoas importantes, ele ia aceitando as minhas limitações. Aos poucos foi percebendo que, com relação à sua família de origem, ele só podia mesmo era sentir uma dor emocional ao falar de seus sofrimentos. Isso tudo culminou numa sessão na qual ele percebeu claramente que não havia nada que ele pudesse fazer, além de chorar. E então chorou copiosamente durante várias sessões. E de repente se lembrou de rezar como fazia quando menino pedindo a Deus pelos seus familiares.
Num momento desse nosso trabalho, o analisando se lembrou de sua infância, quando ia às missas de domingo e rezava pelos seus pais e irmãos, pedindo a Deus para fazê-los felizes. Naquela época ele tinha um conflito infantil que era difícil de ser resolvido. Seus pais esperavam que ele fosse às missas todos os domingos e ele assim o fazia. Mas eles próprios não iam a essas missas. Na sua mente de criança achava que por não faltar às missas, se ele morresse, iria para o céu. Mas os seus pais, por não irem à missa, iriam para o inferno. Ele ficava imaginando se seria feliz no céu, sabendo que os seus pais estavam no inferno. Aquela situação infantil agora se repetia no fim de sua análise: poderia ele estar bem, ter uma vida satisfatória e agradável, sabendo do sofrimento mental por que (é igual a pelo qual) passava sua família de origem?
Por um momento isso o estava impedindo de terminar a sua análise e de pensar no seu futuro. Como na situação infantil, ele queria que eu, um “Deus”, pudesse aliviar o sofrimento de sua família para ele então poder estar bem!
Isso nos leva a uma questão de meu interesse desde que iniciei o meu trabalho como psicanalista. Em muitas situações de sofrimento e de desespero dos meus pacientes e/ou de seus familiares, eu tive a vontade de ser Deus para aliviá-los. Aos poucos fui aceitando que a minha área de atuação frente ao sofrimento humano era bastante limitada: tentar resolver conflitos neuróticos e psicóticos analisáveis que podiam ser minorados e em alguns poucos casos, resolvidos. Mas, na vivência humana havia inúmeras situações em que o sofrimento não era o produto de uma neurose ou de uma psicose: ele era parte das vicissitudes da vida real, sofrimentos às vezes intensos, inesperados e inevitáveis. Sentimentos que deveriam ser sentidos e não analisados.
Ao entrarmos nessa questão do sofrimento humano, do qual nenhum de nós está livre, entramos na dimensão de Deus e da religião, porque não acredito que a humanidade esteja pronta para enfrentar nenhum sofrimento sem essa dimensão. Pode ser até que um dia a humanidade chegue lá, mas quando eu olho para a história, desde os povos mais primitivos e simples aos mais sofisticados e tecnológicos, vejo sempre essa dimensão espiritual, um relacionamento com uma força maior do que nós, seres limitados, a quem recorremos nas ocasiões de dores inevitáveis que afetam nossas vidas. Acredito que a psicanálise nunca poderá preencher esse espaço por uma razão muito simples: o psicanalista não é Deus.
No futuro, não sei. Será que teremos um admirável mundo novo sem Deus e sem religião, onde as pessoas enfrentarão essas dores sem a dimensão espiritual?
Só o tempo dirá. Mas tenho a certeza de que a psicanálise nunca irá preencher esse lugar!
Marcio Vasconcelos Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

9

de
maio

Freud? Quem? Que Freud?…

Como vocês sabem Freud nunca parou. Vocês já pensaram onde ele estaria hoje se estivesse vivo?… À medida que foi vivendo e ouvindo os seus pacientes, suas idéias foram evoluindo e ele foi mudando as suas concepções sobre o nosso funcionamento mental,.
Ele sempre foi flexível em suas teorias. Capaz de mudá-las quando percebia que as coisas não eram bem como ele as tinha pensado. Nesse sentido, Freud foi sempre, e acima de tudo, um pesquisador. Dependendo da época de sua vida suas concepções são diferentes. Essa coragem de mudar diante de novas evidências é prova de seu comprometido com a verdade.
Freud inicialmente imaginou que a nossa maior motivação era, essencialmente, a busca do prazer, através de uma energia situada entre o corpo e a mente chamada libido. Essa era uma teoria monista dos instintos. Para ele, a busca do prazer sexual não se limitava apenas à sexualidade adulta, como o termo é empregado pelo leigo. A sexualidade já estava presente desde o nascimento e mudava no transcorrer do desenvolvimento humano, passando por fases que foram denominadas de oral, anal, fálica e latência para chegar, finalmente, na fase adulta genital. Por muito tempo Freud considerou a agressividade (destrutividade) apenas como uma reação secundária às frustrações dos nossos desejos libidinosos.
O que vocês vocês acham? Quando pensam em vocês mesmos, concordam com essa concepção Freudiana? Nós simplesmente tentamos lidar com a nossa libido e nos defendemos contra ela quando nos coloca em perigo em termos de nossa sobrevivência na sociedade? A grande descoberta de Freud foi perceber que muitas dessas batalhas se passavam no nosso inconsciente sem a gente saber que elas estavam ocorrendo. Ele então concebeu a mente funcionando em níveis de consciência: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Essa primeira concepção é chamada de Primeira Tópica ou Teoria Topográfica. Já imaginaram que então não somos donos do nosso destino porque os maiores determinantes de nossas decisões ocorrem foram da nossa consciência? A gente fica se sentindo meio pequeno perante esse grande determinante desconhecido, não?
Só quando Freud chegou aos seus cinqüenta anos é que ele foi ficando impressionado com uma outra dimensão de nós todos: a agressividade e destrutividade. Várias coisas chamaram a sua atenção para esse lado mais sombrio. A primeira guerra mundial, com toda sua destrutividade, o suicídio, as reações terapêuticas negativas, o sadismo e masoquismo, só para citar alguns fenômenos. Juntamente com esses fenômenos Freud começou a lidar com os sentimentos de culpa em seus pacientes, pacientes que, apesar de bem analisados e de estarem prontos a viver uma vida prazerosa sem suas neuroses, se impediam de ficar bem numa espécie de compulsão à repetição… o medo de mudar, de ficar bom!
Isso tudo o levou a desconfiar que algo que ele não entendia bem deveria estar ocorrendo nos seus pacientes, além do princípio do prazer. Foi aí que ele percebeu que, além da libido, nós, seres humanos, somos influenciados por um instinto de destruição tão poderoso e tão presente desde o nascimento quanto a busca do prazer. Pensem bem, vocês conseguem ver isto em vocês mesmo? Ao aceitar que somos motorizados por dois instintos básicos, a teoria freudiana passou a ser uma teoria dualista dos instintos.
Juntamente com essa mudança Freud partiu para uma construção teórica: a sua Segunda Tópica ou Teoria Estrutural. Aqui ele imaginou a vida mental com as agências Ego, Id e Superego. Assim, o sentimento de culpa seria uma tensão entre o Ego e o Superego e o aparecimento da ansiedade estaria relacionado com o perigo da emergência, no Ego, de desejos, impulsos e sentimentos inaceitáveis e inconscientes. Nesta concepção, o ego se tornou um mediador entre o id, o superego e a realidade externa na qual nós todos estamos inseridos. O Ego se tornou um cavaleiro montado num cavalo bravo e observando o caminho a ser trilhado, evitando todos os perigos. Nessa visão estrutural, o Ego tem partes conscientes e partes inconscientes (por exemplo suas defesas), o Id é quase sempre inconsciente e o Superego também tem partes conscientes e inconscientes. Aliás, o Superego como tal só aparece clinicamente na forma de culpa quando não está em harmonia com as exigências da libido e da agressão vindas do Id.
O Ego inicialmente era considerado como se formando a partir de conflitos que tentava mediar. Mas autores que estudaram a adaptação do ser humano no seu ambiente social, especialmente os psicanalistas europeus que imigraram para os Estados Unidos, sentiram na própria pele a problemática da adaptação. A partir desses estudos eles postularam que o Ego não é formado apenas pelos conflitos. Ele tem uma parte autônoma, livre de conflito, e as pessoas já nascem com essa parte incipiente, que vai se desenvolver voltada para a adaptação do ser ao ambiente social médio. Mas, ao se interessarem por essa dimensão adaptativa, esses analistas nunca negaram a primeira e a segunda tópicas e nunca se propuseram a trabalhar apenas com os egos de seus pacientes para que se conformassem a uma realidade social. As críticas que receberam nesse sentido de certas fontes nunca foram justificadas. Vocês concordam que parte da problemática em todos nós é essa adaptação ao nosso mundo social?…
Freud nunca tentou juntar a sua primeira concepção (Topográfica) com a segunda (Estrutural). Ele continuou usando ora uma, ora outra. Pena que a vida é breve e como todo mundo Freud eventualmente nos deixou. Volto à minha questão inicial: vocês já imaginaram onde ele estaria em suas teorias se estivesse até hoje entre nós?…

Marcio Vasconcelos Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

19

de
fevereiro

Menos é mais?…Para quem?

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que, neste artigo, não estou me gabando e nem dizendo que a minha experiência como analisando tenha sido melhor ou pior do que as dos outros. Isso é impossível de medir. Mas, nos anos sessenta, quando fiz minha análise pessoal nos Estados Unidos, uma intervenção terapêutica só era chamada de psicanálise se estivesse dentro de certos parâmetros bem delineados.
Para ser considerada uma psicanálise, o tratamento deveria ter quatro sessões por semana, com o analisando deitado no divã. Às vezes, cinco. Três era uma concessão não muito bem vista, mas ainda aceita em alguns Institutos de formação psicanalítica. O tempo das sessões era sempre de cinqüenta minutos, cuidadosamente medidos pelo analista. Tudo isso de acordo com Freud quando ele definiu, com grande clareza, o seu método de tratamento.
Claro que nesse campo tão complexo, poderia até haver exceções, isto é, gente capaz de ser analisada com uma menor freqüência de sessões, ou até sentada em vez de deitada. Tudo é possível. Mas, em média, para a maioria das pessoas, esses parâmetros maximizavam o que Freud esperava acontecer no processo psicanalítico: o desenvolvimento e a resolução da Neurose de Transferência.
Naquela época, a psicanálise era muito popular nos Estados Unidos. O modelo acima era aplicável às pessoas consideradas analisáveis. Não eram muitas. Para a grande maioria das pessoas que buscava ajuda havia um atendimento menos intenso, chamado de psicoterapia psicanalítica, que era mais indicado. Essa psicoterapia era menos profunda, tinha uma freqüência menor de sessões e, via de regra, o paciente ficava sentado em vez de deitado. Lá, sempre houve e continua havendo essa diferenciação clara entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica.
Vocês podem imaginar que essa psicanálise não era barata. Com sessões tão freqüentes, os analistas corriam o risco de não terem pacientes se eles cobrassem muito por sessão. Também, como as sessões eram de cinqüenta minutos, eles tinham uma limitação no número de pacientes que poderiam atender nos seus consultórios. Por isso, de um modo geral, os psicanalistas americanos ganhavam o pão de cada dia sem se enriquecer.
Depois de dezesseis anos morando, estudando e trabalhando nos Estados Unidos, voltei para Belo Horizonte. Para a minha surpresa a psicanálise aqui era bem diferente. O que mais me chamou a atenção foi não haver uma diferença entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. Era comum um “analisando” ter uma ou duas sessões de grupo e/ou uma ou duas sessão individuais de “psicanálise” por semana.
Quando eu tentava comentar essas diferenças, ouvia sempre objeções a eu estar falando de coisas externas tais como freqüência, duração das sessões e posição dos analisandos nos consultórios. Tentavam me convencer de que esses parâmetros nada tinham a ver com a essência da psicanálise, a qual se concentrava na fala do paciente e na escuta do analista. Mas, pensava eu, será que essas variáveis, tão bem delineadas por Freud, realmente não faziam nenhuma diferença em termos do processo psicanalítico?
Não tardou muito, e talvez coincidente com a minha volta, vi Jacques Lacan surgir no horizonte psicanalítico de Belo Horizonte. Eu sempre o achei meio antipático. Alguém que, para “demonstrar” a sua “superioridade” como o “verdadeiro psicanalista”, era impiedoso na crítica dos outros psicanalistas, especialmente os norte-americanos tão meus conhecidos. Como em Belo Horizonte quase que só havia literatura lacaniana, essas críticas de Lacan foram se transformando em lugar comum no meio psicanalítico mineiro. Sempre achei interessante que Lacan tivesse tamanha penetração nos países latinos, o mesmo não acontecendo nos anglo-saxões. Mas esta é outra história.
Para mim, no Brasil, a psicanálise que eu havia aprendido, não só teoricamente, mas também na minha experiência pessoal como analisando, virou uma zorra. Com o nome mágico de “psicanálise”, todos os tratamentos psicológicos estavam incluídos e todos os profissionais nessa área, independentemente de suas formações, se apresentavam como “psicanalistas”.
Enquanto eu estava tentando entender essas diferenças, tomei conhecimento de dois procedimentos lacanianos que me chamaram a atenção: o chamado “tempo lógico!” e a exigência de o paciente pagar cada sessão em dinheiro vivo. Puxa, aí também já era mudar demais! Já não existiam mais os parâmetros de freqüência de sessões, agora nem havia mais o de duração das sessões, e surgia ainda um novo modelo do pagamento. Desculpem-me os iniciados da minha ignorância. Tenho a certeza de que para eles essas práticas têm um embasamento teórico profundo e são de muita valia para seus analisandos.
Mas não podemos deixar de considerar a possibilidade de elas beneficiarem mais os analistas do que os analisandos. Admito que isto pode ser uma grande coincidência, mas aquelas limitações dos analistas americanos, as de que não podiam ir além de um certo número de analisandos por dia com as sessões de cinqüenta minutos, foram superadas pelo modelo lacaniano. Eles, com o tempo lógico, podiam ter muito mais pacientes por dia, esperando na sala de espera cheia, sem saber quando seriam chamados. Claro que pagando as sessões curtas como se fossem inteiras, a preço normal. Isto até me deu um pouco de inveja… Quem sabe não viro um lacaniano?…
Assim, até hoje não consegui resolver essa dúvida que se instaurou em minha mente. Essas mudanças na psicanálise que eu encontrei no Brasil são progressos no tratamento, isto é, dão melhores resultados para os pacientes ou… para os psicanalistas?
Assim, fica a pergunta: nessa psicanálise menos é mais… mas, para quem?
19/02/08-Marcio V. Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

22

de
janeiro

Psicanálise e medicação-1

A psicanálise tem remédio?…Escrever qualquer coisa sobre a psicanálise sempre provoca controvérsia. Por isso às vezes isso se torna um sofrimento… O tema de hoje não deixa por menos. Difícil de ser abordado sem cairmos nos radicalismos, nas escolas e em toda essa confusão que o Freud começou.. É um tema multideterminado. Mas, a pergunta básica permanece simples: existe um lugar para a psicofarmacologia nos tratamentos psicanalíticos?
Vamos atrás de Freud… Ele era um médico neurologista. Foi como tal que começou a se interessar pelas pacientes histéricas de Charcot, para as quais não havia tratamentos eficazes. Ajudado por Breuer, ele foi ouvindo essas pacientes e então eles perceberam que à medida que elas lembravam e falavam de suas histórias isso aliviava seus sintomas. Assim foi inventada a “Cura pela Fala” nome, se não me engano, proposto por uma dessas pacientes.
Como neurologista, Freud tentou colocar suas descobertas dentro de um referencial neurológico, isso é, procurando identificar no funcionamento cerebral as mudanças causadas pelos sintomas e pela cura através da fala. Tentou, mas não conseguiu. Acabou desistindo, mas deixando uma esperança de que no futuro talvez isso pudesse ser possível a partir de melhores conhecimentos sobre o funcionamento cerebral e melhores instrumentos de pesquisa. Enquanto isso não era possível, passou a criar um corpo teórico psicológico a partir de suas observações e construções das associações livres de seus (suas) pacientes. Vocês já tentaram imaginar onde Freud estaria hoje em termos do funcionamento mental dos seus pacientes?
Mais no fim da vida ele chegou a falar de sua esperança de um dia os conhecimentos
sobre o cérebro poderem tornar possíveis remédios eficazes no alívio das desordens mentais que ele tratava com o seu método psicanalítico, por não ter outra escolha.
Claro que com o passar dos tempos, como não podia deixar de ser, começaram as controvérsias. A psicanálise floresceu numa época em que não havia psicofármacos. Além disso, a psicanálise deixou de ser uma atividade médica (só os médicos têm o poder de receitar) e passou a ser exercida também por leigos, especialmente os psicólogos. Enquanto não havia remédios para as desordens mentais mais graves (esquizofrenia, depressões profundas e desordens bipolares), muitos analistas tentaram tratar tais pacientes com uma psicanálise modificada sem remédios (um dia desses vou falar de psicanálise clássica versus modificada… mas não hoje)..
Lembro que em 1961, quando os primeiros remédios estavam aparecendo no cenário psiquiátrico, durante o meu primeiro ano de residência na Universidade de Maryland, a gente fazia psicoterapia psicanalítica com todos os pacientes e o uso da medicação era censurado, uma espécie de sinal de que a psicanálise não estava sendo bem conduzida. Mas, os remédios continuaram a aparecer e os neurocientistas foram ficando mais presentes e poderosos, e a coisa foi ficando bem mais complicada. Uma das minhas primeiras pacientes, no primeiro ano de minha residência, foi uma senhora com um caso clássico de Desordem Bipolar severa (naquele tempo Psicose Maníaco Depressiva), que eu tratei com psicoterapia psicanalítica com sessões de cinqüenta minutos, três vezes por semana. Sem resultados palpáveis. Se fosse hoje, tenho a certeza que essa paciente estaria tomando pelo menos o Lítio, ou um dos outros estabilizadores do humor descobertos desde então. Apenas para lembrar, a nossa profissão não é estática… vai sempre evoluindo.
Esta questão chega a ser filosófica. Desejamos, com a psicofarmacologia, caminhar para o “Admirável Mundo Novo” de Huxley, onde todos tomam suas pílulas que evitam quaisquer sentimentos disfóricos? Ou vamos permanecer na época áurea da psicanálise, antes do aparecimento dos remédios? Devemos ou não combinar as duas coisas quando isso se torna clinicamente necessário? Essa pergunta se estender mais, ficando generalizada: até que ponto queremos alterar as vicissitudes do viver neste mundo com toda a gama de sentimentos bons e maus, inevitáveis e peculiares aos seres humanos? Não podemos substituir a vida, com todas as suas conseqüências, pelos remédios e nem pelo divã do analista. Por isso devemos saber, com muito discernimento, quando problemas de estar neste mundo se tornam problemas clínicos que devem ser tratados.
Pensam que isso é fácil? Claro que não é. Muitas pessoas nos procuram porque não querem sofrer dores inevitáveis no viver e nós não podemos fazer nada para aliviá-las. Porque elas fazem parte do estar neste mundo.

22

de
janeiro

Psicanálise e medicação-2

Quando pensamos sobre a medicação, aparece um empecilho: os psicanalistas que não são médicos, os psicólogos, por exemplo, não podem receitar. Será que eles poderiam então, subconscientemente, ter a tendência de recomendar psicanálise pura, sem remédios, para os seus clientes?… E o que dizer do outro extremo: os psiquiatras que não fizeram formação psicanalítica. Será que, sem perceber, eles adotam uma ideologia “biológica” tentando convencer os seus pacientes de que os remédios são as únicas respostas para todas as doenças mentais, até as mais leves?
Vejam bem os perigos dessas duas profissões, psicanálise e psiquiatria, que estão ainda em sua infância. Eu não falei que era difícil falar dessas coisas sem causar polêmicas?
Um exemplo histórico. Perto de Baltimore, Maryland nos Estados Unidos, mais precisamente em Rockville, existiu um hospital, Chestnut Lodge, embasado na teoria e prática psicanalítica para pacientes mentais graves. Ali, os pacientes eram internados com a garantia dada pelas famílias de que eles ficariam na Instituição pelo menos por cinco anos. O tratamento era principalmente a psicoterapia psicanalítica intensa individual, ministrada por psicanalistas experientes e de renome. A crença vigente era que essa psicanálise modificada poderia ter um efeito benéfico sobre esses pacientes. O (A) paciente tinha sessões de cinqüenta minutos, cinco vezes por semana (às vezes seis) e o resto do tempo ele (a) era simplesmente gerenciado por um psiquiatra administrador cuja função era colocar limites e tentar inpedi-lo(a) de causar danos a si mesmos ou a terceiros.
Apesar de os remédios para depressão terem aparecido especialmente os direcionados para as doenças mentais mais graves tais como a esquizofrenia, depressões psicóticas e desordens bipolares, o hospital Chestnut Lodge continuou por muito tempo resistindo ao seu uso, acreditando que a psicanálise modificada seria o melhor tratamento para cada paciente.
Eis que um dia um paciente, um médico, foi lá internado com uma depressão psicótica profunda. Ele foi atendido pelo método tradicional usado no hospital: psicoterapia psicanalítica cinco vezes por semana, sem o uso da medicação. Pois bem, o sofrimento de uma depressão psicótica é coisa quase impossível de tolerar, coisa tão severa que muitos pacientes cometem suicídio para dele escapar. O paciente-médico ficou nesse tratamento muitos meses sem apresentar nenhuma melhora. Eventualmente ele decidiu deixar o hospital para se internar num outro onde teve, além da psicoterapia, um tratamento medicamentoso com um antidepressivo. Ele respondeu muito bem a esse tratamento, chegando a se recuperar e eventualmente até a se tornar um psiquiatra. Mas ele não deixou por menos: processou o Chestnut Lodge por erro médico, dor e sofrimento, e, querem saber? Ganhou o processo e recebeu uma vultosa quantia de indenização, que permanece até hoje em segredo por determinação judicial.
Claro que esse caso alertou todo mundo, psiquiatras e psicanalistas, e ficou famoso nos Estados Unidos. A partir dele todos os analistas que se propõem a tratar um paciente apenas dentro dos parâmetros psicanalíticos passaram a se proteger informando-lhe que existiam tratamentos alternativos, inclusive com medicação, e que ele deve ter a liberdade de escolher. Isso, por escrito. Tudo por medo do processo por erro médico, tão comum nos Estados Unidos e que, infelizmente, está ficando muito freqüente aqui no Brasil.
Vocês podem então perceber que, dependendo da porta onde o paciente bate, ele estará sujeito a ter tratamentos diferentes, às vezes até radicalmente opostos.
Na prática, o ideal são psiquiatras e psicanalistas não radicais, que colocam o bem-estar do paciente acima de suas crenças e das suas questôes mercadológicas. Eles estarão abertos às duas intervenções terapêuticas atuais, a psicanálise e a psicofarmacologia. na medida em que elas se tornam necessárias.
Nas minhas observações de muitos anos, quando um paciente chega exigindo só um tipo de intervenção (psicanálise ou psicofarmacologia), fico sempre desconfiado que ele precisa da intervenção que ele reluta em aceitar….Meu conselho: fujam dos radicais!
Na nossa profissão ainda tão precária, devemos estar abertos às evidências que vêm de todas as fontes. Certamente que existem pacientes que se darão muito bem numa psicanálise pura sem remédios, e os que responderão melhor aos remédios, sem psicanálise. Mas, via de regra, em média, a grande maioria das pessoas que nos procura se dá melhor com uma combinação de psicoterapia psicanalítica e medicação psiquiátrica.
Depois a gente fala mais sobre essas diferenças entre a psicoterapia psicanalítica e a psicanálise clássica…Por hoje é só!
23/01/2008 Marcio de Vasconcellos Pinheiro wefp.bh@terra.com.br

17

de
janeiro

Psicanálíse: Individual, de Casal ou…de Familia?…

Puxa, tentei escrever este artigo muitas vezes. Que tema difícil. Quase desisti no meio do caminho para pegar um outro tema. Por exemplo: Psicanalise e Remédios… Mas, vamos tentar mais uma vez.

Os psicanalistas, desde Freud, começaram com um modelo de atendimentos individuais e custaram muito a se interessar por um atendimento de casais e de famílias. Aliás, o próprio Freud, se não me falha a memória, numa ocasião confessou que se sentia perdido ao tentar lidar com as famílias de seus analisandos. Durante toda sua vida ele esteve centrado no indivíduo que o procurava em busca de alívio para as suas dificuldades mentais. Além disso, Freud também era bem pessimista com relação ao tratamento das doenças mentais mais graves, porque achava que tais pacientes não conseguiam formar com ele um laço terapêutico. Só muito mais tarde os seus seguidores não só se aventuraram no atendimento de casais e de famílias, como, ao mesmo tempo, também se interessaram pelo atendimento de pessoas com doenças mentais graves.

Alguns continuaram sempre trabalhando na tradição do atendimento individual de pessoas que eram consideradas “analisáveis”, isso é, sem um distúrbio mental grave. Melanie Klein, por exemplo, trabalhou com crianças individualmente, sem se envolver com suas famílias. Ela se percebia apenas como interpretadora do inconsciente sem olhar para o que se passava entre as crianças e suas famílias. Dizem as más línguas que ela assim agia porque a maioria de seus (suas) pacientes eram filhos(as) de colegas. Já Anna Freud discordou dela achando que, além da interpretação, o relacionamento da criança com ela era importante, o mesmo ocorrendo com o que se passava na família em termos interpessoais. Isso gerou uma grande cisão no movimento psicanalítico e só não deu pancadaria porque uma evitava a outra. Só hoje isso está sendo mais ou menos resolvido e integrado na correnteza central do pensamento psicanalítico.

Repetindo, a psicanálise por muito tempo foi um tratamento individual para pessoas que quase não precisavam de tratamento e, por isso mesmo, os resultados eram sempre bons, apesar de nunca poderem ser medidos. Tudo muito subjetivo. Sinto estar andando aqui num campo minado ao fazer essas afirmativas…

Então, inicialmente o paciente psicanalítítico ideal seria um(a) jovem, solteiro(a), introspectivo(a) e rico(a), capaz de pagar os honorários, freqüentemente ambiciosos, dos seus psicanalistas. Infelizmente, no caso da riqueza herdada, o prognóstico quase nunca é muito bom. Esses “felizardos”, via de regra, criados na mordomia, não passam necessidades e frustrações. Por isso quase nunca têm a motivação para persistir num tratamento que vise mudar a sua maneira de ser no mundo. Quando algo dá errado em suas vidas, estão sempre prontos para culpar o mundo. Preferem, na hora do aperto, passear em Paris ou comprar um carro novo, deixando o analista sempre para depois. Então, não basta o paciente ideal ser rico, o melhor é ele ser capaz de ter rendimento proprio fruto do seu trabalho, suficiente para pagar o analista.

Assim, voltando ao paciente ideal, ser solteiro(a) é sempre bom. Ainda não está preso(a) numa engrenagem marital que torna tudo mais difícil na hora das mudanças. Se existem filhos, a coisa fica ainda mais encrencada! E… quem trabalha tem sempre uma melhor relação com a realidade e conseqüentemente uma melhor saúde mental. Quando terceiros pagam o tratamento, geralmente pais ou cônjuges, fica mais dificil conduzir um tratamento individual sem a interferência deles. Via de regra, acabam participando do tratamento de uma maneira ou de outra. Ganham um certo poder até de interromper o tratamento se este não está indo na direção que acham desejável. Finalmente, o(a) paciente ideal deve ainda ter um pouco de espaço para rever ou quem sabe alterar a natureza do seu trabalho na medida que entende melhor as suas motivações. Freud, na sua sabedoria, aconselhava os seus analisandos iniciantes a não fazerem decisões muito importantes em suas vidas, tipo casar ou separar, mudar de trabalho ou de lugar geográfico, antes da análise estar mais adiantada.

Vocês já devem estar sacando que esse paciente ideal não passa de uma abstração e que na prática ele raramente aparece. Quase todos os casos que chegam ao consultório já estão comprometidos em engrenagens interpessoais que envolvem cônjuge, família e trabalho. E sempre mostram um grau muito variado de psicopatologia!

Por isso, os psicanalistas tiveram de se virar para incluir esse mercado nos seus atendimentos. Na evolução do tratamento psicanalítico começaram a aparecer tentativas de ir além do indivíduo, isto é, intervenções em nivel do casal e da família.

Se imaginarmos um continuum entre o atendimento individual do paciente saudável e independente, de um lado, e o atendimento do paciente dependente e com doença mental grave do outro, em algum ponto desse continuum a familia irá, inevitavelmente, participar do tratamento. Como a psicanálise não é uma ciência, essa inclusão da família tem sido feita na base de tentativas e erros e só aos poucos vamos chegando a algum consenso. Os atendimentos do casal e da família são muito mais recentes do que o atendimento individual proposto por Freud.

Voces sabiam que terapeutas de família já chegaram a internar a família inteira juntamente com paciente identificado? E, no outro extremo, um psicanalista chegou a afirmar que só tem bons resultados com pacientes graves quando a familia dele se afasta, deixando-o apenas com casa, comida e o analista individual. Dois casos extremos que bem demonstram a complexidade do atendimento psiquiátrico e a singularidade de cada caso.

Existem famílias, geralmente de bom poder aquisitivo, em que cada membro está em tratamento individual, cada um no seu canto, incapaz de se relacionar com os outros autenticamente. Em situações como estas será que essas psicanálises individuais não estariam perpetuando uma doença familiar? No caso de casais, o mesmo pode ocorrer. Não é raro encontrar cada um fazendo a sua análise individual quando o que poderia estar ocorrendo seria uma abordagem do casal. Eu já ouvi gente dizer que quando um parceiro inicia uma análise sem o outro participar, a coisa sempre termina em divórcio. Não existe cônjuge que consiga competir com o entendimento e compreensão que o analista oferece…

Então, levando isso tudo em consideração, que tratamento recomendar quando alguém procura o analista: Individual, de Casal ou de Família?

Um bom clínico no mundo de hoje, ao se deparar com um novo caso, deve ter a liberdade de propor a estratégia inicial do tratamento concentrando-se na área de maior problemática: o indivíduo, o casal ou a família. E até além, às vezes a área mais comprometida na vida de uma pessoa está na sua inserção psicossocial em termos de adaptação (não estou falando de conformidade). Por isso um analista deve batalhar por uma sociedade onde ele e seus analisandos tenham as maiores chances de trabalhar na direção da saúde mental e da plena cidadania.

Desde Freud as coisas têm mudado muito no nosso campo. Se ele estivesse aqui entre nós até hoje, certamente que estaria pensando diferente do que ele fez durante a sua vida. Só os freudianos, kleinianos e lacanianos etc. é que não mudam muito, devotos desses textos passados. Devemos estar abertos a todas as mudanças que tornem o nosso atendimento mais eficiente. O que nos norteia deve ser sempre… os resultados!

Imagino que no futuro, a psicanálise de casais e a de família irão se tornar cada vez mais populares e os psicanalistas terão cada vez mais liberdade de recomendar o que é melhor para cada caso sem colocar todos num leito de Procrusto.

Marcio V. Pinheiro [wefp.bh@terra.com.br]

4

de
novembro

Poligamia

Outro dia, num programa de televisão, me deparei com um brilhante – e superintelectualizado – psicanalista fazendo uma afirmativa sem a menor sombra de dúvida: “O ser humano é polígamo!”.

Pensei, puxa como as pessoas têm tanta certeza das coisas! Partindo de um psicanalista, tal afirmativa carrega consigo, pelo menos para os leigos, uma revelação da verdade absoluta sobre nós, seres humanos, neste mundo.

A princípio até que achei a afirmativa interessante, mas à medida que fui refletindo, fui ficando cada vez mais incerto sobre o ser humano, o sexo e com o amor. Vejam bem que usei aqui duas palavras, uma pulsional, vinda das profundezas do ser, e a outra mais voltada para um relacionamento interpessoal no contexto do mundo social.

Concedo. Se aquele psicanalista tivesse dito que as pulsões institivas do ser humano são polígamas, ele poderia estar mais correto porque as nossas pulsões vindas lá do Id buscam o prazer independentemente de qualquer outra consideração. Mas, mesmo assim, ainda ficaria uma dúvida se essas pulsões buscam o prazer com uma determinada pessoa. Prestem atenção que eu falei “com” num sentido de mutualidade, no contexto de um relacionamento interpessoal que, quando dá certo, nós chamamos de amor.

Mas, será que o ser humano se constitui apenas das pulsões emanadas do seu Id? Se assim foss, acho que o nosso psicanalista na televisão estaria correto: seríamos todos polígamos em busca do prazer, independentemrnte de com quem.

Mas, tenho as minhas dúvidas se a questão pode ser colocada nesses termos. Não que eu, aqui, queira definir o que seja um ser humano. Mas, cá entre nós, espero que vocês concordem comigo que nós não somos apenas nossas pulsões.

Em primeiro lugar, somos seres sociais e nos inserimos no meio dos outros onde procuramos nos adaptar, inclusive buscando uma vida prazerosa. Feliz ou infelizmente nenhum de nós está acima das normas do grupo onde vivemos. No caso da poligamia, ela não faz parte do nosso contexto social.

Em segundo lugar somos seres morais, isso é, carregamos conosco princípios que nos norteam e que nos ajudam a diferenciar o certo do errado em nosso comportamento. O que seria de nós, se não carregássemos conosco esses princípios morais? Certamente desviantes, sociopatas que não sentem culpa ou remorso e que não conseguem ter empatia e se colocar no lugar de seu semelhante.

Mas, a coisa não fica só aí. Nós também temos a capacidade de ler a realidade social em nossa volta, de prever até certo ponto as conseqüências de nossas ações, sabendo que às vezes a busca de um prazer imediato poderá nos trazer grandes sofrimentos futuros. Somos seres inteligentes, somos capazes de lembrar de nossas experiências, de ter uma noção de nossa história, de nos relacionar com os outros.

Aí fica a pergunta. Em termos de seres humanos, o que é mais importante? As nossas pulsões? Os nossos princípios morais? A nossa adaptação ao grupo social ou a nossa capacidade de prever a conseqüência de nossas ações?

Chegamos então ao meu desconforto com a afirmativa do brilhante psicanalista. Não posso concordar com ele que nós, seres humanos, somos apenas pulsões. Somos muito mais do que isso.. Se ele tivesse dito que as nossas pulsões são polígamas e que nem sempre somos capazes de controlar os nossos desejos e fantasias, eu poderia até concordar com ele. Mas daí a dizer que somos – como seres humanos – polígamos me parece uma simplificação e uma priorização das pulsões acima de tudo o mais que tem a ver com o estar neste mundo. Somos seres complexos e não apenas como os outros animais.

Dentro do nosso ambiente social, com as nossas pulsões mais primitivas, com os nossos valores morais, com a nossa capacidade de prever as conseqüências de nossas ações e a nossa capacidade de manter um relacionamento duradouro de amor, não podemos afirmar que somos polígamos.

Pelo menos eu, não consigo… Vamos refletir?

Marcio de Vasconcellos Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br 

10

de
outubro

Psicanálise no país Tupiniquim.

No país Tupiniquim e cheio de auês como é o Brasil, é fácil alguém se apresentar como um psicanalista e até ter grande sucesso profissional. Para isso, basta ser inteligente, bem articulado na fala ou na escrita (quase nunca alguém consegue ser nos dois), ler Freud ou Lacan e sair por aí com roupa de grife e…sim… sem se esquecer de uma ou mais correntinhas de ouro no pescoço. Claro que sempre prometendo resolver todos os tipos de problemas, desde as desordens físicas mais impiedosas até as pequenas dificuldades da vida quotidiana.

Como deve ser difícil para o cidadão comum escolher o seu psicanalista na hora do aperto. Pior ainda, avaliar se seus encontros com esse analista estão lhe rendendo os bons frutos prometidos. Pessoas praticamente passam a vida toda fazendo uma psicanálise interminável. Substituindo o viver e suas conseqüências pelo divã.

Mas, como assim? Será que toda a psicanálise é isso? Claro que não. Existe um lugar para o tratamento psicanalítico de certas dificuldades mentais e esse procedimento clinico descoberto por Freud sempre teve a sua validade. Mas como você, um cidadão comum, pode escolher um analista que possa ajudá-lo em suas dificuldades?

Primeiro e acima de tudo, evite os psicanalistas que falam ou escrevem numa linguagem que você não consegue entender. Fuja deles como o diabo da cruz. Posso lhe garantir que seus encontros com esses sábios não resultarão em nada apesar da fala obscura que pode até lhe impressionar. Freud, por exemplo, nunca fez isso. Prefira sempre um psicanalista que fala na nossa linguagem comum na nossa cultura.

Em segundo lugar, evite os psicanalistas que são fieis a um só autor ou “escola”. Tipo samba de uma nota só. Ele estará mais preocupado em encaixá-lo no modelo do seu mestre do que em tentar entender o que se passa em sua mente. Evite os Freudianos, Kleineanos, Lacanianos e outros anos. São monoteístas, mais interessados em seguir os seus deuses exclusivos do que as suas associações livres. Um bom analista não se atrela a um autor, por melhor que ele seja. Ele terá lido muitos autores sem entrar para o clube de nenhum. Ele usa os seus conhecimentos, vindos de várias fontes, para trabalhar com você as suas dificuldades.

Em terceiro lugar, fuja dos analistas que nunca foram adequadamente analisados. Pergunte, na cara de pau, sobre a sua formação, a que grupo pertence e, acima de tudo, se fizeram uma analise pessoal. Numa profissão que nunca foi regulamentada (nem sabemos se isso é possível), pessoas se dizem analistas sem nunca terem sido analisadas. Posso lhes garantir que, por mais brilhantes e cultas que sejam, não vão ser capazes de enfrentar as dificuldades que surgem no tratamento psicanalítico na medida em que ele evolui.

Em quarto lugar, não fique com os analistas que acrescentam outras variáveis ao processo terapêutico além da sua fala. Por exemplo, eletro encefalogramas, por mais coloridos que sejam; recomendações de livros para você ler ou CDs para você ouvir. Não confiem nos que focalizam nos seus sonhos sem deixá-lo livre para levar para as sessões o que aparecer na sua mente no momento do encontro. E, muito importante, desconfiem dos que não falam nada e evitam se relacionar com você, se escondendo atrás de um silencio defensivo.

Em quinto lugar, pergunte sobre a disponibilidade do analista em atendê-lo consistentemente sem interromper as sessões por razões teóricas, viagens, congressos, passeios e tudo o mais. Pergunte se você pode ter acesso a ele num momento de maior dificuldade e stress. Evite os que se refugiam em sítios sem telefone, os que têm celulares que nunca atendem e não podem nunca ser encontrados. Não é fácil encontrar esses analistas confiáveis que sabem ouvir inteligentemente.

Por fim, depois de começada a sua analise, exija o recibo que você tem direito. Essa coisa de ficar agradando o analista através de não pedir recibo é um mau começo. A psicanálise é um bom investimento, dedutível do Imposto de Renda.
Marcio V. Pinheiro-wefp@terra.com.br

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