8
de
outubro
Ah! a tal de formação… Parte 1
Pensando bem, até que, teoricamente, a coisa não é tão complicada assim.
Primeiro, a pessoa procura um “Grupo de Formação”. Alguns se denominam “Institutos de Psicanálise”, outros têm nomes diferentes. A pessoa é ou não aceita, depois de preencher as exigências que podem variar muito de grupo para grupo. Uma vez dentro, ela deve seguir um programa de formação. Mas aí começam os problemas: existe psicanalista formado?… Quando alguém pode se considerar um psicanalista?
Como a profissão não é regulamentada, qualquer pessoa com ou sem formação pode se apresentar como um psicanalista, um título que no Brasil ainda carrega muito prestígio. Aqui, ir a um psiquiatra não dá muito ibope… mas ir a um psicanalista dá algum status…
De um modo geral a formação se baseia num tripé: Análise Pessoal, Seminários Teóricos e Análise sob Supervisão. Parece simples não é? Mas a coisa não é bem assim, e as perguntas vão logo aparecendo: A análise pessoal de um psicanalista em formação deve ser mais exigente e mais complexa do que a de um analisando comum? E ela poderá ser feita com qualquer analista ou só com analistas selecionados (“os melhores”) chamados “Analistas Didatas”?
E os Seminários? Eles devem abordar o corpo teórico que vem sendo formado desde Freud? Mas isto é muito vasto e por isso cada grupo tem os seus autores e as suas teorias prediletas, que geram enormes controvérsias e até inimizades entre os grupos. Geralmente os professores do grupo determinam os trabalhos que devem ser estudados. Mas, mais perguntas: Como esses professores são selecionados dentro dos grupos? Isso pode virar uma Torre de Babel dentro do que poderíamos chamar de “movimento psicanalítico”. Grupos privilegiam autores em detrimentos de outros, às vezes se transformando em seguidores fiéis de um autor só, rejeitando todos os demais. E ai do candidato quando ele não reza pela cartilha.
E as primeiras análises do candidato com seu analisando sob supervisão? Repararam esse nome interessante: “candidato”? Seus supervisores devem ser selecionados? Por quem? Geralmente essas análises são (ou deveriam ser…) de baixo custo com o analisando sabendo que está fazendo análise com um candidato em formação, sob supervisão. Mas nem sempre á assim. Eu já conheci candidatos ambiciosos que cobravam mais do que os seus supervisores.
Além disso, tudo existe uma grande política institucional em cada grupo, geralmente uma briga de foice pelo poder, que, uma vez instalado, é difícil de mudar. Cada grupo acaba tendo um núcleo que o dirige e que é sempre muito respeitado, para não dizer temido. É sempre muito difícil, dentro da instituição, questionar os membros desse núcleo de dirigentes que assumiram o poder.
Acho que já deu para vocês sacarem como esse campo da formação é muito minado… Acho impossível descrever o que se passa em todos os grupos, espalhados pelo mundo, que se propõem a “formar” psicanalistas. Mas, de um modo geral, a gente poderia dizer que eles vão de extremo a extremo, com muitos no meio. Os mais conservadores se propõem a selecionar melhor os candidatos e a exigir que eles sejam psiquiatras ou psicólogos com evidências de talentos para exercer a profissão. Interessante notar que alguns Institutos chegam a dizer que é de certa importância o candidato ter passado por problemas emocionais pessoais, pois isso os motiva a entrar nessa profissão. No outro extremo existem grupos de formação que aceitam praticamente qualquer pessoa formada em curso superior, desde naturalmente que ela possa pagar. É lugar comum afirmar-se que “a formação é cara".
Até agora só falamos de formação. A psicanálise nunca entrou nas universidades e, como já disse, até hoje não é uma profissão legalmente regulamentada. Talvez, pela sua natureza, ela tenha mesmo de ser assim. Qualquer cidadão pode abrir seu consultório de psicanálise sem que isso fira nenhuma lei. Aliás, por causa do prestígio do nome, quase todos tratamentos psicológicos no Brasil hoje são apresentado como “psicanalíticos”.
Voltemos um pouco para a história. Como sabemos, Freud passou a sua vida ouvindo os seus pacientes e escrevendo sobre o que com eles foi descobrindo e imaginando sobre o funcionamento mental. Não entraremos aqui nas suas descobertas espetaculares que mudaram a percepção que nós hoje temos dos nós mesmos como sêres humanos.. Ele foi sendo rodeado de profissionais que se interessaram pelas suas descobertas. Eventualmente foi formada uma instituição de caráter universal: a IPA (International Psychoanalytical Society).
Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br.

