14
de
novembro
MINTO, LOGO EXISTO.
Quem nunca mentiu que atire a primeira pedra. Mentir faz parte da natureza humana e de um modo geral, mentimos por questões de adaptação social.
Simplesmente, em determinadas situações, dizer uma mentira é mais conveniente que dizer a verdade.
Todos nós temos medo de dizer a verdade sobre alguma coisa, com medo de não sermos compreendidos ou aceitos.
Se  recebemos um convite para um evento para o qual não estamos dispostos a comparecer, não são raras as vezes que aparece aquela enxaqueca ou coisa parecida. Se ganhamos um presente de uma pessoa com a qual não temos tanta liberdade e do qual não gostamos, fica difÃcil dizer que não gostou.
São mentiras que não têm por objetivo lesar alguém, mas sim omitir algo para evitar um desentendimento ou uma indelicadeza. Nessas situações, quem mente sabe por que está mentindo e o faz por opção. Não há sofrimento nem culpa.
Mas existem outras situações em que a mentira pode ser patológica. A pessoa sente uma necessidade incontrolável de mentir.  Nesse caso a mentira não é exatamente uma opção, mas antes um problema de natureza psÃquica.
A mentira compulsiva pode gerar conseqüências desastrosas para a pessoa que mente e para os que convivem com ela.
Quando o  hábito de mentir torna-se constante e sobrepõe-se a tudo causando uma distorção da realidade é sinal de que a situação merece atenção. A pessoa fica desacreditada, primeiro pelos mais Ãntimos depois pelos amigos e por último nas relações sociais.
Por mentir deliberadamente, a vida de uma pessoa assim acaba por ser afetada em todos os aspectos: no trabalho, nas relações amorosas e familiares, nas questões financeiras.
Mesmo considerando que a realidade seja subjetiva, o que representa que cada pessoa tem a sua própria maneira de perceber o outro, o mundo e também de se perceber, existe uma distorção na maneira em que o sujeito se coloca que se evidencia. Nesse caso é preciso reflexão e quase sempre ajuda.
A necessidade de mentir compulsivamente está relacionada a um sentimento de inferioridade em relação ao valor que esse sujeito atribui à s outras pessoas. Muitas vezes achamos que não somos exatamente aquilo que poderÃamos ser, ou aquilo que esperam de nós. Nesses casos esse sentimento é vivido de uma maneira extrema e a realidade é sentida como insuportável.
O sujeito se vê tão pequeno e sem importância que cria para ele um outro completamente irreal e inatingÃvel. Há uma supervalorização das próprias crenças como uma maneira de aplacar a angústia subjacente. É para sustentar essa distorção que o ato compulsivo de mentir cria um efeito: minto, logo existo.
Os fatos que levam alguém a esta condição são muito variados, mas a necessidade de atenção e cuidados, condição que talvez faltaram a estes indivÃduos na infância, estão entre as motivações principais.
A baixa autoestima acaba desencadeando a compulsão de mentir sem nenhum motivo que o justifique.
A compulsão, seja ela por mentir, por comida, por bebida ou por drogas encerra em si mesma uma mentira, na medida em que longe de ser uma saÃda, distorce os problemas e a falta de amor próprio.
O pior que pode acontecer e o mais comum que aconteça, até mesmo pelo sofrimento, pelo desgaste causado aos familiares e pessoas de seu vÃnculo afetivo são a descrença e a confirmação que dá consistência ao sintoma: fulano é mentiroso, fulano só diz mentira, não dá prá acreditar em fulano…
Muitas vezes, a pessoa não se dá conta da profundidade de seu desequilÃbrio. Contam-se histórias ao mesmo tempo em que se acredita nelas.
O sujeito só vai dar-se conta de que precisa buscar alguma forma de se implicar e de se ajudar, quando a mentira atrapalhar de verdade a sua vida, causando perdas muitas vezes irreparáveis.
Mas para que alguém possa se implicar, falar sobre seu sintoma de mentir é preciso, antes de qualquer coisa, que haja receptividade, uma disponibilidade autêntica que favoreça ao individuo, para que ele possa vir a compreender sobre sua verdade.
O sintoma é um porta-voz de uma verdade que pede para ser escutada.
Psicanalista Fátima Rabelo


