26
de
janeiro
Uma maior abrangência da psicanálise… Um exagero?-final
De qualquer maneira, algumas coisas ficam evidentes. O atendimento ao paciente mental grave, com esquizofrenia, depressões psicóticas e transtornos borderlines, tem sido tentado por psicanalistas desde muito tempo. Mas até hoje, esses procedimentos são muitos controvertidos e frequentemente conflitantes. Ao mesmo tempo em que existem profissionais que acham que esses pacientes se beneficiam com a psicoterapia psicanalÃtica, existem outros que acham que isso é até contra-indicado. Se de um lado existem profissionais que acreditam que um bom hospital psiquiátrico é necessário para o atendimento em determinadas circunstâncias, existem outros que acham que o hospital nunca deve ser parte da rede de atendimento, com exceção de enfermarias psiquiátricas em hospitais gerais apenas para o atendimento de crises.
A coisa não pára aÃ… Se existem profissionais que acham que essas desordens são basicamente biológicas e, portanto, só respondem à s medicações psiquiátricas, existem outros que acreditam que esses pacientes podem e devem ser tratados sem nenhuma medicação, apenas com a psicoterapia psicanalÃtica. Existe até uma Associação Internacional Pró Tratamento Psicoterápico da Esquizofrenia e outras Psicoses, mas, ao mesmo tempo, existem estudos universitários (por exemplo, os estudos PORT da Universidade de Maryland) que tentam demonstrar que essa abordagem é contra-indicada e até nociva ao paciente esquizofrênico.
Quantas coisas já foram tentadas no atendimento desses pacientes mentais graves. Houve quem internasse no hospital psiquiátrico não só o paciente como toda a sua famÃlia. Ou os que tentaram tratar tais pacientes separados de suas famÃlias, em residências sem nenhuma supervisão, sem medicação, na comunidade. Há os que propõem, em certos casos, a internação involuntária por indicação médica, já outros acham que isso só se torna necessário se o paciente estiver apresentando perigo iminente para si mesmo ou para outros. No Brasil, por exemplo, existe agora um movimento antimanicomial que prega o fechamento de todos os hospitais psiquiátricos por eles não serem mais necessários. Mas isso não é um consenso dentro da psiquiatria brasileira, pois muitos profissionais ainda acreditam que os hospitais psiquiátricos são necessários para certos casos de alto risco.
Quando chegamos nessa encruzilhada das desordens mentais graves, as coisas com a psicanálise e a psiquiatria podem ficar muito polarizadas. Isso se deve à falta de conhecimentos que possam gerar um consenso e ao fato de estarmos lidando com doenças tão misteriosas como ainda são a esquizofrenia e as desordens borderlines (com relação às depressões graves e desordens bipolares já existe um maior consenso).
Outra coisa interessante. Existe nos Estados Unidos (e já está crescendo aqui) uma organização de familiares de pacientes com desordens mentais graves, a National Aliance For the Mentally III, que tem feito muito para melhorar o atendimento desses pacientes. Mas nessa organização eles, talvez defensivamente, têm uma ideologia que acredita que os pacientes familiares sofrem de uma desordem cerebral que nada tem a ver com suas experiências interpessoais, especialmente dentro da famÃlia. Por essa razão, muitos pacientes são veementemente contra essa organização.
Outros exemplos de confusão. Para alguns psicanalistas, a esquizofrenia é um problema estrutural linguÃstico, diferente qualitativamente das desordens menos graves. Para outros a coisa não é assim: todos têm os seus núcleos primitivos psicóticos que podem ser tratados e superados, havendo uma continuidade entre a psicose, a neurose e a vida mental mais saudável. Será que os pacientes que se apresentam com esquizofrenia têm uma estrutura mental imutável, diferente da dos outros? Às vezes existe um cÃrculo vicioso: se alguém trata um paciente com esquizofrenia com sucesso, sempre vem quem irá questionar se o diagnóstico estava correto…
Vejam bem que complicação..
Eu poderia continuar citando as muitas ideologias ligadas à s possÃveis causas e tratamentos das desordens mentais graves, especialmente a esquizofrenia, mas vou dar apenas mais um exemplo: os laboratórios farmacêuticos e muito pesquisadores estão convencidos do sucesso dos tratamentos quÃmicos. Mas a cooperação entre psiquiatras e esses laboratórios nos Estados Unidos, e imagino no Brasil, também tem se transformado num escândalo, na medida em que a indústria farmacêutica gasta milhões com pagamentos diretos e indiretos a psiquiatras pesquisadores e conferencistas para apoiarem esse ou aquele remédio como sendo o melhor. Isso está virando um problema mundial de grandes proporções.
E assim a coisa vai.
Onde eu me situo hoje? Em primeiro lugar, não posso negar a benéfica influência da Psicanálise na Psiquiatria. Ela nos ajuda a entender melhor os pacientes psiquiátricos e a lidar com eles mais inteligentemente. Também não consigo dispensar as contribuições da psiquiatria, inclusive dos remédios psiquiátricos, em determinados momentos do tratamento. Acredito que quando a casa está pegando fogo, primeiro precisamos apagá-lo para depois, sim, procurar entender o que aconteceu e como o fogo poderá ser prevenido no futuro.
O profissional que se propõe a tratar esses pacientes mais graves deve se considerar apenas um elo numa rede de atendimentos que começa no consultório, mas que, dependendo do andamento de cada caso, pode passar por hospitais-dia, enfermarias psiquiátricas em hospitais gerais, hospitais psiquiátricos e atendimentos comunitários, tais como centros de convivências, lares protegidos e de crises em situações de emergência. Isso deverá ser completado com um bom atendimento à s famÃlias. Claro que esses componentes da rede devem ser bem coordenados, com uma comunicação eficiente entre eles. Seria um engano um profissional achar que, com o nosso estado atual de conhecimentos, tais pacientes poderão ser atendidos apenas em seu consultório.
Complexo e difÃcil não? Mas, mesmo no meio dessa confusão e conhecimentos precários, esses pacientes precisam ser atendidos por alguém.
Marcio V. Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

