Psicanálise e outras coisas

26

de
janeiro

Uma maior abrangência da psicanálise… Um exagero?-1/2

A psicanálise pode ser vista como um corpo teórico, um método de pesquisa e uma atividade clínica. Quanto aos dois primeiros, não existem muitas dúvidas sobre a sua utilidade: o corpo teórico tem crescido e em muitas direções desde os dias de Freud; a pesquisa da mente humana também continua, sempre com descobertas cada vez mais interessantes. Mas quando consideramos os seus resultados clínicos, as coisas complicam um pouco. Não podemos esquecer que Freud, já mais para o fim da vida, não mostrou muito entusiasmo pelos resultados do seu método terapêutico e falou de sua esperança de aparecerem no futuro, com um melhor conhecimento do funcionamento cerebral, tratamentos químicos mais eficazes.
Houve uma época em que a psicanálise atingiu o seu ápice, tornando-se muito popular, especialmente nos Estados Unidos. Não preciso dizer que nos países comunistas ou ditos marxistas ela nunca foi bem-vinda. Entendamos por que. Entre outras coisas e simplificando um pouco, a tendência marxista é atribuir o comportamento humano a fatores externos, especialmente os econômicos, enquanto Freud sempre buscou essas explicações no mundo e nos conflitos internos. Essas visões de Freud (olhando para dentro) e de Marx (olhando para fora), alguns psicanalistas e filósofos tentaram integrar, mas sem muito sucesso. Mas isso, por si só, daria outro artigo.
A psicanálise inicialmente focalizou o tratamento das pessoas neuróticas (em contraste com as psicóticas) e por isso mesmo consideradas “analisáveis”. Acho que essas são uma percentagem muito pequena das que pedem ajuda ao analista. Poderíamos até dizer, de um modo provocativo e bem-humorado, que a psicanálise inicialmente seria um método de tratamento para quem quase não precisava se tratar e… por isso os seus resultados eram muito bons. Como disse o Prof. Otto Allen Will Jr, quando lhe perguntei um dia sobre o resultado de sua análise com o Dr. Harry Stack Sullivan, o criador da Psiquiatria Interpessoal nos Estados Unidos: No fim da minha análise acho que passei a tocar o violino um pouquinho melhor…
A grande revolução proposta por Freud no atendimento clínico foi a de sistematicamente ouvir o que seus pacientes tinham para dizer. Até então eles procuravam os médicos com sintomas aos quais os tratamentos psiquiátricos eram aplicados sem que eles fossem ouvidos. Com a psicanálise, não só ouvir o paciente se tornou essencial como todos os seres humanos entraram no mesmo barco, isto é, passou a não haver mais uma dicotomia entre o médico saudável e um paciente, doente. As diferenças passaram a ser quantitativas. Como diria Sullivan, somos muito mais humanos do que não.
Parte do meu referencial ao escrever este artigo vem dos Estados Unidos, onde fiz a minha residência e onde trabalhei durante 30 anos. A psiquiatria americana, nos anos 50 e 60, era muito influenciada pela psicanálise. Era chamada de Psiquiatria Dinâmica. Quando fiz a residência na Universidade de Maryland, não havia os remédios psiquiátricos de hoje.  Começávamos a residência atendendo os pacientes internados com três sessões de cinqüenta minutos de psicoterapia de inspiração psicanalítica por semana, independentemente dos seus diagnósticos. Não vou voltar aqui na questão da diferença entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica. É suficiente repetir que na psicoterapia psicanalítica o arranjo e a freqüência das sessões são diferentes da psicanálise clássica. Naquela o terapeuta é mais ativo, mais transparente, atende o paciente sentado e não deitado no divã (os pacientes com desordens mentais mais graves não toleram o divã e, se colocados nessa posição, perdem ou frequentemente podem perder o contato com a realidade).
No tempo de minha residência nos anos 60, quase todos os professores e chefes de departamentos de psiquiatria nos Estados Unidos eram psicanalistas. Aliás, para se tornar um psicanalista lá, naquela época, o candidato deveria primeiro ser médico e psiquiatra. Havia uma enorme esperança na psicanálise de que ela fosse de grande utilidade não só para os pacientes neuróticos analisáveis, mas também para os pacientes psiquiátricos com desordens mentais graves. Houve então a tentativa de torná-la mais abrangente modificando-a para o atendimento desses pacientes mais incapacitados.
Na Universidade de Maryland fui influenciado por gente que eu até hoje respeito. Entre eles o chefe do Departamento de Psiquiatria, o Professor Eugene Brody, psicanalista e psiquiatra. Perto da Universidade de Maryland estava, na época, ocorrendo uma experiência interessante.  Psicanalistas experientes tentavam trabalhar com doentes mentais graves hospitalizados. Tudo parece que começou com o Harry Stack Sullivan, um psicanalista que inicialmente montou uma enfermaria para pacientes esquizofrênicos, homens e jovens no Hospital Sheppard Pratt, em Baltimore, e tratou-os com sucesso. Foi a partir dessa experiência que Sullivan construiu a sua Teoria Interpessoal da Psiquiatria, que até hoje é muito pertinente ao atendimento desses pacientes mentais graves.
Depois dele vieram Frieda Fromm Reichman, Harold Searles, Otto Allen Will Jr, Clarence Shulz, Robert Gibson e outros no Chestnut Lodge e mais tarde no Hospital Sheppard Pratt em Baltimore, onde eu trabalhei.
Em outros países alguns psicanalistas também tentaram tornar a psicanálise mais abrangente no que se refere ao atendimento desses pacientes mentais graves.  Não vou fazer aqui uma resenha de todos esses movimentos, cada um com suas teorias, especialmente com relação às esquizofrenias, essa desordem misteriosa e enigmática que até hoje desafia e frequentemente derrota os esforços terapêuticos dos profissionais.
Aqui vale uma parada para tecer algumas considerações. O paciente mental grave, incapacitado, via de regra não é capaz de trabalhar e por isso não tem rendimentos próprios. Assim, quase sempre é a sua família que acaba arcando com os custos do seu tratamento. Isso, por si só, já traz suas complicações. Não é como o paciente analisável, capaz de trabalhar, cujo tratamento não precisa envolver sua família. No hospital Chestnut Lodge, por exemplo, eles pediam às famílias que assinassem um documento se comprometendo a permitir que o paciente ficasse em tratamento no hospital por pelo menos cinco anos. Naquela época a família não era atendida, a não ser para conversas esporádicas com os psiquiatras, e frequentemente ela era vista como um empecilho. Só mais tarde a família foi incorporada ao tratamento como uma dimensão importante. Além das sessões de psicoterapia psicanalítica freqüentes, os pacientes também moravam em enfermarias administradas clinicamente por psiquiatras outros que não os seus terapeutas. Existe uma literatura extensa sobre o que seria um bom atendimento hospitalar, tema que poderá, quem sabe, ser um artigo futuro.
Marcio V. Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

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