25
de
dezembro
Afinal, o que ocorre numa análise?…1/2
Há alguns anos, trocando idéias com um supervisor sobre o que ocorria numa sessão psicanalítica, arrisquei a dizer que eu percebia inúmeras dimensões, ao que ele retrucou: Não são muitas, são milhares, nem todas percebidas claramente de modo a poderem ser pesquisadas Desde então, sinto uma certa antipatia quando ouço um colega tentar reduzir o encontro psicanalítico a uma única dimensão, por exemplo, tornar o inconsciente, consciente.
Mas, vamos devagar, começando pelas dimensões mais simples. Em qualquer psicanálise existe sempre a dimensão do apoio emocional, que estará mais ou menos presente, especialmente em momentos de crises na vida do analisando. Se alguém me disser que isso ocorre também em outras psicoterapias e que, portanto, não é característica da psicanálise, eu até concordaria. Mas se me dissessem que isso não ocorre no processo psicanalítico, iria discordar. O simples ato de alguém ouvir o outro – de preferência inteligentemente – já é um grande apoio emocional. E olhem que ouvir não é fácil…
Além disso, num processo psicanalítico existe sempre um movimento na direção do esclarecimento dos pensamentos e das emoções do analisando. À medida que ele
fala, revive e sente, inevitavelmente estará esclarecendo seus pensamentos, memórias e emoções relacionados com a sua vida presente e passada. Isso por si só constitui grande parte do que se passa no encontro psicanalítico: a catarse e o esclarecimento. Outra vez, poderei ouvir que isso, por si só, isso não caracteriza a psicanálise. Concordo mas, repito, essa é, sem dúvida, uma das milhares dimensões que ela apresenta.
E os vários aspectos do relacionamento interpessoal entre as duas pessoas, o analista e o analisando, que se encontram regularmente por um considerável período de tempo? Sei que para alguns isso pode ser uma heresia, especialmente os que consideram a psicanálise uma forma de hermenêutica, isto é, meramente uma interpretação da fala do paciente. Não que eu tenha nada contra essa noção, pois, de certa forma, a fala pode ser vista como um texto a ser interpretado (chegaremos à interpretação daqui a pouco). Mas dizer que isso ocorre num ambiente impessoal, sem que se forme um laço entre analista e analisando, parece-me uma negação da do encontro entre essas duas pessoas.
Em termos de psicanálise, muito importante é a transferência, isto é, a maneira como o paciente se relaciona com o analista, inconscientemente tentando repetir os relacionamentos que teve com pessoas importantes do seu passado. Aqui entra um elemento histórico na análise. De uma feita concordei com um analista meu amigo que me disse que quanto menos uma pessoa tiver a necessidade de esquecer, maior será a sua saúde mental. Também não podemos desconsiderar as distorções emocionais vindas do analista, pois ele da mesma forma tem a sua história com pessoas importantes do seu passado.
Poderíamos incluir aqui não só esse tipo de contratransferência como também aqueles sentimentos que o analisando provoca silenciosamente no analista e que o faz, sem saber, repetir os sentimentos e o comportamento de pessoas importantes na vida passada do analisando.
Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br


Comentário por Sonia Pinheiro — 25 de dezembro de 2008 (12:07)
Muito boas as suas explicações sobre o que é a psicanálise e seus desdobramentos.
Abs
Sonia