17
de
novembro
O Psicanalista e o…dinheiro.-Parte final.
Apareceu um tal de tempo lógico que permitia ao analista encher a sua sala de espera e decidir quanto tempo ficar com cada analisando, que pagava sempre a sessão integral. Tudo isso continuando a ser chamado de psicanálise.
É claro que os analistas ambiciosos adoraram essas mudanças teóricas e práticas porque até então, com sessões de cinqüenta minutos, eles estavam limitados a certo número de pacientes que podiam atender num dia.
Vamos fazer os cálculos. Um analista com pacientes quatro vezes por semana, em sessões de 50 minutos, trabalhando 40 horas por semana, pode ter no máximo dez pacientes. Para poder manter esses pacientes, ele teria de cobrar uma quantia possível para os seus bolsos. Claro que aí haveria uma variação, dependendo dos rendimentos e reservas de cada um. Mas, para efeito de nossos cálculos, vamos imaginar que o analista cobrasse 100 reais a consulta. Isso daria quatrocentos reais por semana e 1800 reais por mês (quatro semanas e meia). Multiplicado por dez pacientes, esse analista teria um rendimento de 18 mil reais por mês; nada mal para um país onde o salário mínimo é em torno de 500 reais por mês. Vamos que ele cobrasse um pouco mais, selecionando uma clientela mais afluente. Poderia cobrar 150 reais por sessão e receberia no caso 27 mil reais por mês
Agora comparem isso com os analistas “bem sucedidos” que cobram mais do que isso, com sessões uma vez por semana. Passam a poder ter quarenta pacientes, digamos pagando, por baixo, 200 reais por sessão. No fim do mês… 32 mil reais. Isso se cada sessão tiver cinqüenta minutos. Pois bem, com o tempo lógico, então esse analista pode ter dois pacientes por “hora” de cinqüenta minutos e aí já vamos para 64 mil reais por mês… salário de gente muito afluente. A pergunta inevitável e muito importante é se esse tipo de psicanálise é bom para o analista, para o paciente ou para os dois. Será que esse procedimento deveria ser chamado de psicanálise? Não estou nem falando dos analistas que vem de fora e que marcam três sessões por dia para os seus pacientes, atendendo-os durante os poucos dias que ficam aqui… Ou dois analisando que procuram um analista lá fora e também são atendidos duas ou três vezes por dia para justificar os seus gastos com a viagem. Sempre a mesma pergunta: bom para quem?
O que eu estou querendo dizer é que, na medida em que os analistas ficam muito ambiciosos em termos materiais, eles acabam matando a galinha dos ovos de ouro. Acabam ficando sem pacientes realmente psicanalíticos e aí se queixam disso. Um famoso analista americano, numa ocasião, fazendo uma conferência em Londres, reclamou que os pacientes psicanalíticos estavam desaparecendo nos Estados Unidos. Ao que um analista britânico retrucou: vocês já experimentaram reduzir o custo das sessões?
Sem dúvida a psicanálise tem perdido o prestígio, e os pacientes potencialmente psicanalíticos estão procurando tratamentos rápidos, geralmente baseados em medicação psiquiátrica, com consultas infreqüentes. Minha impressão é que isso ocorre por causa do custo das consultas dos psicanalistas e até também dos psiquiatras.
Já sei. Já sei… já antecipo os argumentos querendo anular o que eu venho falando até aqui. Por exemplo, o número de sessões não tem nada a ver. É coisa burocrática não relacionada com o processo psicanalítico. Freud falou isso porque naquela época ele ainda não conhecia as novas teorias, especialmente as de Lacan. E que o tempo lógico é muito importante para cortar o blá-blá-blá do paciente e para discipliná-lo a realmente falar das coisas mais importantes. Ou, com os nossos melhores conhecimentos e experiências, hoje podemos fazer as mesmas análises que Freud e seus seguidores faziam, com menor número e duração das sessões. Entendo, considero todos esses argumentos, mas não estou convencido. Qualquer terapeuta que se preze sabe as diferenças no andamento da psicoterapia ou psicanálise com a mudança do número e duração das sessões.
Mas, vamos deixar essas coisas para os leitores julgarem. Escrevo-as, como faço sempre nesse campo tão complexo, a lápis.
Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br

