Psicanálise e outras coisas

17

de
novembro

O Psicanalista e o…dinheiro.-Parte 1.

Parece que os primeiros analistas eram modestos e não muito ambiciosos em termos materiais. Quando Freud descreveu o seu método de tratamento, ele certamente deixou claro que era uma coisa demorada, com sessões de cinqüenta minutos, quatro ou cinco vezes por semana. Ele também achava que o paciente devia usar o divã. Isso tudo para facilitar o que ele considerava crucial no processo psicanalítico: o desenvolvimento e a resolução na Neurose de Transferência.
Por muitos anos os psicanalistas seguiram suas recomendações e confirmaram que elas faziam bom sentido. Como me disse numa ocasião um velho analista de Baltimore: “Nós temos muita satisfação na nossa profissão, apesar dos poucos ganhos materiais.” Quando eu fiz a minha primeira análise em Baltimore, USA, com um analista que acabou sendo o presidente da Associação Psicanalítica Americana, ele vivia uma vida modesta, morava num apartamento simples com a sua esposa e tirava férias duas vezes por ano: no mês de agosto e em dezembro para ir ao Congresso da Associação Psicanalítica Americana em Nova Iorque, por uma semana. Eu tive sessões quatro vezes por semana durante os três anos e meio em que fiz análise com ele.
Quando iniciei a minha psicanálise, eu era um residente em psiquiatria e ganhava muito pouco. Depois de uma entrevista e de um período de psicoterapia semanal, ele recomendou a psicanálise a um custo muito baixo por causa de minha situação financeira. Com o tempo, na medida em que consegui ganhar mais no meu trabalho, o preço das sessões foi subindo. Claro que tudo descontado do Imposto de Renda. No fim de cada mês ele me dava sua conta no seu papel timbrado, especificando o número de sessões e o custo total. Na sessão seguinte eu lhe pagava com cheque nominal.
Comparemos agora esse cenário com o que eu encontrei e vejo até hoje em Belo Horizonte. Acho que não existe um analisando aqui que faz psicanálise três vezes por semana. Não digo nem quatro. O que as pessoas chamam de psicanálise aqui lá seria chamado de Psicoterapia Psicanalítica. Geralmente são sessões uma vez por semana ou até menos, quase sempre bem remuneradas. Entre a minha experiência lá e o que eu percebo aqui, há uma grande mudança. Ao chegar a Belo Horizonte em 1974, primeiro eu percebi, e achei muito estranho, como os psicanalistas eram muito ambiciosos em termos de ganhos materiais. A psicanálise chegou aqui e começou a ser difundida como um procedimento sempre muito caro. Com certeza isso era racionalizado como sendo “terapêutico”, porque “assim os analisandos iriam valorizar mais as suas sessões e trabalhar mais assiduamente nelas”. Quase todos os analistas cobravam dos seus pacientes os meses em que tiravam férias e pelo menos um cobrou de sua analisanda o tempo em que ele esteve fazendo uma viagem à Europa.
Fiquei impressionado com a capacidade dos meus colegas aproveitarem da transferência e de racionalizar a razão dessa cobrança excessiva como sendo algo muito bom… “para o analisando”. Imagino que como a maioria dos analisandos não poderia nunca pagar sessões quatro vezes por semana a esses preços, a noção de psicanálise em Belo Horizonte foi mudando. Passou a não ser teoricamente importante a freqüência das sessões. Isso era considerado uma bobagem, pois o que era mais importante era o que se passava entre o analista e o analisando. Mas não apenas isso foi mudando. Os analistas mais procurados começaram a fazer grupos (sempre mais lucrativos em termos de horas trabalhadas), às vezes misturando-os com sessões individuais. Para resumir, a psicanálise aqui foi virando uma bagunça que passou a responder, acima de tudo, aos anseios materiais inconfessáveis dos psicanalistas.
Antes de prosseguir, deixem-me esclarecer que para mim a psicanálise inventada pelo Freud, com sessões de cinqüenta minutos, pelo menos três vezes por semana, no divã, é necessária, mas se aplica a um número muito pequeno das pessoas que nos procuram em busca de ajuda. A grande maioria de nossos pacientes pode e deve ser tratada com uma combinação de psicoterapia psicanalítica e medicação psiquiátrica, quando isso se torna necessário. Entre esses, muitas vezes a família e/ou o cônjuge deve participar (já falei sobre isso num dos meus artigos anteriores).
Para complicar, também depois apareceu Lacan. Claro que “com tudo muito bem embasado teoricamente” – nem sempre de uma maneira que o cidadão comum pudesse entender ele acabou ajudando os analistas a receberem em dinheiro cada sessão (lá se vai a dedução do imposto…) e foi além. Nem as sessões que até então duravam cinqüenta minutos permaneceram como tal.
Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br

Arquivado em: Sem categoria I

Nenhum Comentário »

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Feed RSS dos comentários deste post. URL de TrackBack

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://psicanaliseatual.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.