8
de
outubro
Ah! a tal de formação… Parte 2
É interessante notar que alguns de seus discípulos permaneceram na correnteza central da psicanálise. Outros, como Jung e Adler, só para citar dois, acabaram rejeitados pelo grupo e formaram seus próprios grupos. Uma de suas alunas, Melanie Klein, uma Assistente Social, cresceu dentro da correnteza central da psicanálise freudiana, mas pesquisou áreas nas quais Freud não havia mexido muito: o desenvolvimento infantil primitivo pré-genital, isto é, os primeiros anos de vida e o papel da agressão (instinto de morte?), além da libido na formação da personalidade. Em alguns pontos ela conflitou tanto com seus colegas freudianos que houve um tempo em que os kleinianos não falavam com os freudianos. Hoje isso está mais ao menos resolvido e os kleinianos foram absorvidos pela correnteza central psicanalítica.
Se a gente olhar como a psicanálise se espalhou pelo mundo, a coisa também fica interessante e, por que não dizer, complicada.
Inicialmente e depois por muitos anos os médicos se apoderaram da psicanálise nos Estados Unidos. Só eram aceitos para formação médicos psiquiatras. Foi preciso uma ação judicial de psicólogos para que eles tivessem o direito de entrar nos Institutos de Formação da Associação Psicanalítica Americana, afiliada à IPA. Essa associação de médicos era tão poderosa que contratou uma tradução para o inglês da obra de Freud (James Strachey) que foi feita medicalizando muitos os termos. Também os psicanalistas norte-americanos trabalham não só com a primeira tópica como também com a segunda.
Na Inglaterra alguns autores se enveredaram pelas relações objetais e levaram a psicanálise para esse caminho.
Na França ela foi arrastada para a literatura e para a lingüística, pelo menos por um grupo que hoje tem uma presença mundial separada da IPA: os seguidores de Lacan que formaram a própria organização internacional depois que Lacan foi expulso da IPA. Tudo naturalmente com o apoio do Ministério da Cultura da França, que investe muito em divulgar trabalhos franceses pelo mundo. Hoje, o genro de Lacan dirige essa instituição mundial que tem crescido muito, especialmente nos países latinos (entre eles o Brasil). Ninguém sabe muito bem a razão disso.
Na Argentina a psicanálise é tão popular que há quem diga que a metade da população faz análise. Inicialmente análises kleinianas porque a psicanálise chegou na Argentina através de psicanalistas que se especializaram na Inglaterra com a Melanie Klein e seus seguidores.
De um modo geral nos países marxistas a psicanálise nunca teve um lugar porque, como sabemos, o entendimento do comportamento individual está sempre atrelado à sociedade e à economia. Lá, alguns filósofos europeus dançaram miudinho tentando juntar a psicanálise com o marxismo. Se o conseguiram o fizeram de um modo tão obscuro que a maioria das pessoas não consegue entender.
É interessante notar que analistas talentosos que contribuíram genuinamente para a teoria e técnica psicanalíticas, freqüentemente não se contentaram em ser apenas contribuintes na correnteza central. Além de Lacan que afinal acabou formando o seu próprio grupo, a gente pode pensar em Kohut, nos Estados Unidos, que acabou fazendo o mesmo, mas numa proporção mais local.
Bem, apesar disso tudo, das brigas teóricas e até pessoais entre os grupos e apesar do lobby da indústria medicamentosa sempre querendo reduzir os problemas mentais a funcionamentos cerebrais, podemos afirmar sem medo de errar que o movimento psicanalítico iniciado por Freud parece estar aqui para ficar. A psicanálise continua sendo uma presença no nosso mundo sócio-cultural e um modelo de atendimento para certos transtornos mentais.
A dificuldade parece estar em escolher onde fazer a formação, e no caso dos analisandos como escolher o psicanalista de sua preferência. Às vezes isso implica em tentativas e erros até a pessoa encontrar o lugar certo para ela. Não existe nenhuma evidência científica que demonstre que uma “escola teórica” seja mais eficiente do que a outra.
Acho que é uma questão muito pessoal, Lacan que me perdoe.
Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br.

