4
de
agosto
A hora de parar… a análise
Tudo bem, tudo bem… o relacionamento com o analista vai indo de vento em popa. Ele continua sendo útil ao analisando, tentando entender e resolver seus problemas e dificuldades emocionais. Existe um laço de trabalho bem formado entre os dois. A análise está progredindo.
Às vezes uma análise vai bem até demais. Fica muito prazerosa para ambos os participantes, que juntos trabalham descobrindo aspectos até então inconscientes na vida mental do analisando (paralelamente isso também ocorre na vida mental do analista, apesar de nem sempre ser reconhecido…). Tenho para comigo que é impossível para um analista trabalhar com seu analisando sem trabalhar consigo mesmo, ao mesmo tempo. O Dr. Clarence Schulz de Baltimore um dia me disse que depois de uma sessão com um analisando, se ele não tivesse aprendido alguma coisa sobre si mesmo, provavelmente o mesmo teria acontecido com o seu paciente.
Mas, os dois participantes sabem que o relacionamento (será que existe mesmo um relacionamento ou tudo que ocorre entre eles são transferências e contratransferências?…) um dia vai terminar, isto é, o analisando não vai mais necessitar de fazer análise e de pagar o analista. Deverá chegar a hora de ele poder ir viver a sua vida sem esse ônus. Pelo menos essa é a teoria. Assim, as análises devem ser termináveis. Não vou entrar aqui nas análises interrompidas por sentimentos negativos não trabalhados entre os dois participantes.
Um paciente meu, que dirigia durante uma hora para vir ao consultório quatro vezes por semana, um dia chegou, depois de encontrar as dificuldades habituais em estacionar o seu carro, e assim que deitou no divã foi dizendo: “Você sabe doutor, eu acho que hoje eu poderia usar melhor esse tempo da análise… no meu trabalho e em coisas que estão me interessando mais”. Falou, mas não insistiu. Eu recebi a mensagem: sua análise estava chegando ao fim. Naquela sessão não comentamos mais sobre o assunto.
Umas dez sessões se passaram até que um dia, ele, no divã, me disse que estava mais do que nunca ficando ciente de quanto a sua análise lhe custava mensalmente (coisa que até então ele nunca tinha mencionado…) e que de repente começou a perceber tudo que poderia estar comprando com aquele dinheiro, caso a sua análise terminasse. Eu recebi essa mensagem da mesma maneira: estávamos nos aproximando do fim da sua análise. Mas, dessa vez, eu puxei mais o assunto e nós falamos abertamente sobre o fim de seu tratamento, agora que ele sentia que a sua vida estava sob controle e ele estava indo bem. Concordei que provavelmente poderíamos mesmo estar chegando ao fim de sua análise, mas não fui logo marcando um dia para o término. Os pacientes às vezes nos testam para saber se estamos querendo nos livrar deles, quando propõem terminar a análise. Convidei-o a observar o que lhe viria à mente nas próximas sessões.
Eventualmente concordamos com o término da análise e com a última sessão para dali a três meses. Esse paciente estava fazendo uma análise “clássica” (puxa, não vamos entrar nisso agora…), quatro vezes por semana, e eu não adotava o sistema de ir reduzindo o número de sessões semanais para terminar uma análise (psicoterapia é diferente…mas isso fica para depois…). Eu considerava isso uma atuação contra o fim das coisas, a perda, a morte. Continuamos nos encontrando com a mesma freqüência até o último dia, quando nos despedimos desejando boa sorte um ao outro.
Aí vem o inesperado! Em primeiro lugar, percebi como foi difícil para mim terminar a análise com aquele paciente. Havia um laço emocional formado entre nós, e quando ele não mais veio ao meu consultório eu senti a sua falta como uma grande perda. Aquilo não estava nos meus planos. E, como logo veremos, nem nos dele.
Anos depois, quando por acaso encontrei com esse paciente, ele me falou do enorme vazio que encontrou em sua vida sem as nossas quatro sessões de análise semanais. Me disse que levou anos para aceitar a perda, que foi muito mais forte do que ele esperava, mesmo quando achava que estava pronto para se separar de mim.
Tem mais, depois do término, em algumas raras ocasiões de stress esse paciente me procurou para uma ou duas sessões e de certa forma nós então sentimos que o relacionamento entre nós – analista/analisando – na realidade nunca iria terminar completamente. Estava alí para ficar.
É por isso que hoje eu penso que uma vez analista, sempre analista. Existem muito poucos trabalhos na literatura da psicanálise que tratam do destino do relacionamento entre analisando e analista depois do término da análise. Eu sempre tenho me interessado por este assunto, embora nunca tenha chegado a uma conclusão satisfatória sobre ele. O que ocorre com o relacionamento entre os participantes– se é que ele existe – no fim da análise?
Provavelmente não podemos generalizar e o término não deve ser igual para todos as análises. Imagino que ele deve variar segundo o grau de psicopatologia, por exemplo. Ou segundo a presença ou não de interesses comuns entre o analisando e o analista. Cada caso seria então um caso. Mas de qualquer maneira, para mim hoje é difícil acreditar que no término de uma análise cada participante possa seguir o seu destino sem que reste nada entre eles em termos de um relacionamento confiável. Conforme poderão perceber, eu não sou dos que acreditam que o lugar do analista “é o lugar do morto” e que ele não existe enquanto pessoa num relacionamento de trabalho com o seu analisando.
Lawrence Kubie, um psicanalista norte-americano de certo talento, um dia me disse numa comunicação pessoal que achava que os analisandos que terminavam uma análise deveriam ser atendidos em grupo por um outro analista para falar do término de suas análises. Uma idéia interessante…
Por outro lado, para tornar as coisas mais complexas e difíceis, eu já terminei analises de anos sem mobilizar muitos sentimentos em mim ou no meu analisando. Eu me lembro do casos que chegaram a ser três ou mais vezes por semana, mas que, quando terminados, me deram a sensação de não termos formado um laço emocional de confiança, como acontece com os outros. Procuro entender o porquê disso sem nunca encontrar uma resposta. Ficou faltando alguma coisa entre nós, difícil de se definir. Geralmente esses pacientes não me procuram no futuro, seja para uma visita ou para retomar umas sessões. E nós não sentimos uma grande perda quando separamos. É só uma sensação que eu tenho em certos casos. Mas, por quê?…
Quando eu morava em Baltimore, Maryland, USA eles contavam uma história do meu analista Dr. Francis McLaughlin (eu nunca lhe perguntei se isso era verdade…). Diziam que numa festa na Sociedade Psicanalítica local ele perguntou a alguns colegas quem era o psiquiatra tão inteligente e interessante que ele havia conhecido e que acabara de sair. Seus amigos surpresos lhe perguntaram se ele não lembrava que aquela pessoa havia sido seu analisando…
Gostaria de ter a opinião de vocês que já terminaram as suas análises. Como vocês lidaram e lidam com isso? Acho que isso seria uma discussão interessante sobre um tema tão pouco explorado mas que a meu ver continua sendo muito importante para todos nós, analistas e analisandos.
Márcio Vasconcelos Pinheiro-wefp.bh@terra.com.br

