4
de
novembro
Poligamia
Outro dia, num programa de televisão, me deparei com um brilhante – e superintelectualizado – psicanalista fazendo uma afirmativa sem a menor sombra de dúvida: “O ser humano é polígamo!”.
Pensei, puxa como as pessoas têm tanta certeza das coisas! Partindo de um psicanalista, tal afirmativa carrega consigo, pelo menos para os leigos, uma revelação da verdade absoluta sobre nós, seres humanos, neste mundo.
A princípio até que achei a afirmativa interessante, mas à medida que fui refletindo, fui ficando cada vez mais incerto sobre o ser humano, o sexo e com o amor. Vejam bem que usei aqui duas palavras, uma pulsional, vinda das profundezas do ser, e a outra mais voltada para um relacionamento interpessoal no contexto do mundo social.
Concedo. Se aquele psicanalista tivesse dito que as pulsões institivas do ser humano são polígamas, ele poderia estar mais correto porque as nossas pulsões vindas lá do Id buscam o prazer independentemente de qualquer outra consideração. Mas, mesmo assim, ainda ficaria uma dúvida se essas pulsões buscam o prazer com uma determinada pessoa. Prestem atenção que eu falei “com” num sentido de mutualidade, no contexto de um relacionamento interpessoal que, quando dá certo, nós chamamos de amor.
Mas, será que o ser humano se constitui apenas das pulsões emanadas do seu Id? Se assim foss, acho que o nosso psicanalista na televisão estaria correto: seríamos todos polígamos em busca do prazer, independentemrnte de com quem.
Mas, tenho as minhas dúvidas se a questão pode ser colocada nesses termos. Não que eu, aqui, queira definir o que seja um ser humano. Mas, cá entre nós, espero que vocês concordem comigo que nós não somos apenas nossas pulsões.
Em primeiro lugar, somos seres sociais e nos inserimos no meio dos outros onde procuramos nos adaptar, inclusive buscando uma vida prazerosa. Feliz ou infelizmente nenhum de nós está acima das normas do grupo onde vivemos. No caso da poligamia, ela não faz parte do nosso contexto social.
Em segundo lugar somos seres morais, isso é, carregamos conosco princípios que nos norteam e que nos ajudam a diferenciar o certo do errado em nosso comportamento. O que seria de nós, se não carregássemos conosco esses princípios morais? Certamente desviantes, sociopatas que não sentem culpa ou remorso e que não conseguem ter empatia e se colocar no lugar de seu semelhante.
Mas, a coisa não fica só aí. Nós também temos a capacidade de ler a realidade social em nossa volta, de prever até certo ponto as conseqüências de nossas ações, sabendo que às vezes a busca de um prazer imediato poderá nos trazer grandes sofrimentos futuros. Somos seres inteligentes, somos capazes de lembrar de nossas experiências, de ter uma noção de nossa história, de nos relacionar com os outros.
Aí fica a pergunta. Em termos de seres humanos, o que é mais importante? As nossas pulsões? Os nossos princípios morais? A nossa adaptação ao grupo social ou a nossa capacidade de prever a conseqüência de nossas ações?
Chegamos então ao meu desconforto com a afirmativa do brilhante psicanalista. Não posso concordar com ele que nós, seres humanos, somos apenas pulsões. Somos muito mais do que isso.. Se ele tivesse dito que as nossas pulsões são polígamas e que nem sempre somos capazes de controlar os nossos desejos e fantasias, eu poderia até concordar com ele. Mas daí a dizer que somos – como seres humanos – polígamos me parece uma simplificação e uma priorização das pulsões acima de tudo o mais que tem a ver com o estar neste mundo. Somos seres complexos e não apenas como os outros animais.
Dentro do nosso ambiente social, com as nossas pulsões mais primitivas, com os nossos valores morais, com a nossa capacidade de prever as conseqüências de nossas ações e a nossa capacidade de manter um relacionamento duradouro de amor, não podemos afirmar que somos polígamos.
Pelo menos eu, não consigo… Vamos refletir?
Marcio de Vasconcellos Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br

