10
de
outubro
Psicanálise no paÃs Tupiniquim.
No país Tupiniquim e cheio de auês como é o Brasil, é fácil alguém se apresentar como um psicanalista e até ter grande sucesso profissional. Para isso, basta ser inteligente, bem articulado na fala ou na escrita (quase nunca alguém consegue ser nos dois), ler Freud ou Lacan e sair por aí com roupa de grife e…sim… sem se esquecer de uma ou mais correntinhas de ouro no pescoço. Claro que sempre prometendo resolver todos os tipos de problemas, desde as desordens físicas mais impiedosas até as pequenas dificuldades da vida quotidiana.
Como deve ser difícil para o cidadão comum escolher o seu psicanalista na hora do aperto. Pior ainda, avaliar se seus encontros com esse analista estão lhe rendendo os bons frutos prometidos. Pessoas praticamente passam a vida toda fazendo uma psicanálise interminável. Substituindo o viver e suas conseqüências pelo divã.
Mas, como assim? Será que toda a psicanálise é isso? Claro que não. Existe um lugar para o tratamento psicanalítico de certas dificuldades mentais e esse procedimento clinico descoberto por Freud sempre teve a sua validade. Mas como você, um cidadão comum, pode escolher um analista que possa ajudá-lo em suas dificuldades?
Primeiro e acima de tudo, evite os psicanalistas que falam ou escrevem numa linguagem que você não consegue entender. Fuja deles como o diabo da cruz. Posso lhe garantir que seus encontros com esses sábios não resultarão em nada apesar da fala obscura que pode até lhe impressionar. Freud, por exemplo, nunca fez isso. Prefira sempre um psicanalista que fala na nossa linguagem comum na nossa cultura.
Em segundo lugar, evite os psicanalistas que são fieis a um só autor ou “escola”. Tipo samba de uma nota só. Ele estará mais preocupado em encaixá-lo no modelo do seu mestre do que em tentar entender o que se passa em sua mente. Evite os Freudianos, Kleineanos, Lacanianos e outros anos. São monoteístas, mais interessados em seguir os seus deuses exclusivos do que as suas associações livres. Um bom analista não se atrela a um autor, por melhor que ele seja. Ele terá lido muitos autores sem entrar para o clube de nenhum. Ele usa os seus conhecimentos, vindos de várias fontes, para trabalhar com você as suas dificuldades.
Em terceiro lugar, fuja dos analistas que nunca foram adequadamente analisados. Pergunte, na cara de pau, sobre a sua formação, a que grupo pertence e, acima de tudo, se fizeram uma analise pessoal. Numa profissão que nunca foi regulamentada (nem sabemos se isso é possível), pessoas se dizem analistas sem nunca terem sido analisadas. Posso lhes garantir que, por mais brilhantes e cultas que sejam, não vão ser capazes de enfrentar as dificuldades que surgem no tratamento psicanalítico na medida em que ele evolui.
Em quarto lugar, não fique com os analistas que acrescentam outras variáveis ao processo terapêutico além da sua fala. Por exemplo, eletro encefalogramas, por mais coloridos que sejam; recomendações de livros para você ler ou CDs para você ouvir. Não confiem nos que focalizam nos seus sonhos sem deixá-lo livre para levar para as sessões o que aparecer na sua mente no momento do encontro. E, muito importante, desconfiem dos que não falam nada e evitam se relacionar com você, se escondendo atrás de um silencio defensivo.
Em quinto lugar, pergunte sobre a disponibilidade do analista em atendê-lo consistentemente sem interromper as sessões por razões teóricas, viagens, congressos, passeios e tudo o mais. Pergunte se você pode ter acesso a ele num momento de maior dificuldade e stress. Evite os que se refugiam em sítios sem telefone, os que têm celulares que nunca atendem e não podem nunca ser encontrados. Não é fácil encontrar esses analistas confiáveis que sabem ouvir inteligentemente.
Por fim, depois de começada a sua analise, exija o recibo que você tem direito. Essa coisa de ficar agradando o analista através de não pedir recibo é um mau começo. A psicanálise é um bom investimento, dedutível do Imposto de Renda.
Marcio V. Pinheiro-wefp@terra.com.br

