Psicanálise e outras coisas

17

de
setembro

Psicanálise, afinal o que é?

Claro que esse título é muito ambicioso se consideramos que nunca existiu um consenso durável sobre o que seja a psicanálise. Desde que Freud passou a sua vida pesquisando e escrevendo sobre o funcionamento da mente humana, abrindo assim o caminho para uma nova profissão, o campo psicanalítico é caracterizado por controvérsias múltiplas e acaloradas entre os seus praticantes. Só não saem por aí aos tapas porque quase sempre são pessoas muito bem educadas…

Se a gente olha com cuidado para os cem anos desde Freud, a coisa que mais se discute é quem ou que grupo representa a psicanálise verdadeira, genuína, como se isso pudesse um dia ser decidido. Os primeiros discípulos de Freud foram logo se conflitando, cada um enxergando uma parte desse imenso elefante disforme que chamamos de mente e que nada tem de lógico ou de racional. Alguns foram rejeitados ou abandonados no meio do caminho, como por exemplo Adler ou Jung. Outros, depois de causar intensas cisões, discussões e batalhas, acabaram sendo incorporados e continuaram sendo aceitos pelo o que poderiamos chamar movimento psicanalítico. Melanie Klein está nesse grupo. Quando ela surgiu no cenário Freudiano, foi logo trombando de frente com a Anna Freud e elas tiveram desavenças intensas sobre o papel do psicanalista na análise de crianças. Já houve tempo quando um psicanalista Freudiano dava volta no quarteirão para evitar de se encontrar com um Kleineano. E assim foi com Kohut e muitos outros, mais recentemente Jacques Lacan.

Entre muitas outras coisas e com dimensões infinitas a psicanálise é acima de tudo um corpo teórico, um método de pesquisa da mente e uma forma de tratamento de desordens mentais. Na medida que os praticantes dessa profissão impossível fazem as suas contribuições teóricas quase sempre fruto do seus trabalhos clínicos, algumas são absorvidas pela correnteza central do conhecimento psicanalítico, gerando um certo consenso. Outras, não. O problema dessa assimilação contudo tem vindo desses próprios psicanalistas criativos e talentosos que, ao fazer suas novas contribuições chamando a atenção para certas áreas até então não percebidas ou exploradas, se consideram lideres de "novas escolas". Infelizmente, num primeiro momento a partir dessa nova visão ocorre logo a formação de um grupo que se filia ao autor, separado da correnteza central em busca de uma identidade própria e quase sempre rotulada de verdadeira psicanálise. Assim é que apareceram no cenário os Kleineanos, os Kohutianos e mais recentemente os Lacanianos todos convencidos de serem os "verdadeiros psicanalistas" .

Fica parecendo que quem se interessa pela psicanálise nem sempre consegue ter uma visão do todo, do corpo teórico que vem se acumulando desde Freud com milhares de contribuições. Talvez para simplificar um campo tão complexo, os psicanalistas, especialmente os mais jovens, se aliam a um só autor tornando-se um devoto incapaz de considerar idéias e experiências que não venham dos suas livros sagrados. Isso para o movimento psicanalítico é muito ruim e tem sido causa de muito atraso tanto no crescimento do seu corpo teórico quanto na técnica da pesquisa e do atendimento clinico.

Aqui não é o lugar para se ficar lamentando. Possivelmente o movimento psicanalítico sempre foi e será assim, com suas guerras tribais e disputas mercadológicas sob o disfarce da pureza científica e outras coisas mais. Todos brigando para serem os verdadeiros herdeiros de Freud. Imagino que quem se propõe a ser um(a) psicanalista deverá estar preparado(a) para um campo tumultuado e movediço que talvez reflita a natureza inevitável do nosso complexo funcionamento mental.

23/09/2007
Marcio V. Pinheiro - wefp.bh@terra.com.br

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