Psicanálise e outras coisas

26

de
janeiro

SOFRO PRA TE FAZER INTERESSANTE.

Com tantas mudanças no âmbito das relações amorosas, poderíamos até supor que a conjugação amar e sofrer seria um capítulo ultrapassado, páginas amareladas de um tempo distante.

Mas a realidade é outra. Independente dos rumos que a vida pós-moderna tenha tomado, a realidade com a qual tratamos as nossas questões amorosas, como cada um sente, interpreta e vivencia, é antes traçada de acordo com a própria subjetividade. Se para uns sofrer em uma relação amorosa não condiz com o seu script subjetivo, para outros, essa experiência é atemporal.

Desde o século XII, na cultura ocidental, o discurso do amor sempre esteve associado à dor, ao sofrimento e à promessa de felicidade. O que faz com que esse tema, ainda hoje, esteja presente na literatura, nos filmes e nas novelas?

Longe de ser tema só das ficções, sofrer em uma relação marcadamente infeliz é algo muito comum. E o que talvez justifique as produções artísticas é que a paixão tem estrutura de ficção, é uma construção da fantasia e, portanto, atemporal.

Na fase da paixão, o que vemos é a pessoa desejada transformada em alguém perfeito e “sob medida”. Com o tempo, esse “delírio” tende a acabar e o que aparece é o outro como ele é, com qualidades e defeitos. Já as relações que crescem para o amor, no entanto, ultrapassam o “delírio” da completude para aceitar os defeitos, erros e as fraquezas do outro. Diferente da paixão, o amor não visa o outro como objeto, mas como ser.

Mas existem as relações que se mantêm no registro da paixão – palavra que vem do latim passionis e significa passividade, sofrimento intenso e prolongado, afeto violento. São relações que não saíram do registro imaginário. A marca da ambivalência entre amor e ódio oscila como em um pêndulo.

O amor como paixão imaginária tem a peculiaridade de ser um amor que deseja ser amado. O que é visado nesse “amor” é o aprisionamento do outro. O que é buscado já está traçado em uma espécie de roteiro imaginário no qual o outro tem a obrigação de corresponder. É um jogo inconsciente em que, para um ficar em uma posição idealizada, precisa manter o outro, que também se mantém em uma posição de carência.

O jogo está montado. Como é impossível que algo dessa ordem se sustente, entra em cena, então, o sofrimento. Não um sofrimento que termina por se resolver, mas que tem como característica não ter solução e, portanto, não ter fim. “Sofro pra te fazer interessante” – é a posição do que sofre para, através do sofrimento, manter a relação. Talvez se o sofrimento cessasse, a relação terminaria. É o sofrimento que mantém o interesse, o que caracteriza uma maneira destrutiva de se relacionar. A busca de mudar o outro se torna devocional.

Por não conseguir renunciar a dor emocional, viver sem esse relacionamento é sentido como morte. O sofrimento é a energia investida em uma espécie de obsessão, em uma teimosia cega, que topa pagar qualquer preço, exceto o preço de uma separação.

Ás vezes é até possível que não seja uma separação de fato, mas uma separação interna, subjetiva.

Fátima Rabelo-Psicanalista

14

de
novembro

MINTO, LOGO EXISTO.

Quem nunca mentiu que atire a primeira pedra. Mentir faz parte da natureza humana e de um modo geral, mentimos por questões de adaptação social.

Simplesmente, em determinadas situações, dizer uma mentira é mais conveniente que dizer a verdade.

Todos nós temos medo de dizer a verdade sobre alguma coisa, com medo de não sermos compreendidos ou aceitos.

Se  recebemos um convite para um evento para o qual não estamos dispostos a comparecer, não são raras as vezes que aparece aquela enxaqueca ou coisa parecida. Se ganhamos um presente de uma pessoa com a qual não temos tanta liberdade e do qual não gostamos, fica difícil dizer que não gostou.

São mentiras que não têm por objetivo lesar alguém, mas sim omitir algo para evitar um desentendimento ou uma indelicadeza. Nessas situações, quem mente sabe por que está mentindo e o faz por opção. Não há sofrimento nem culpa.

Mas existem outras situações em que a mentira pode ser patológica. A pessoa sente uma necessidade incontrolável de mentir.  Nesse caso a mentira não é exatamente uma opção, mas antes um problema de natureza psíquica.

A mentira compulsiva pode gerar conseqüências desastrosas para a pessoa que mente e para os que convivem com ela.

Quando o  hábito de mentir torna-se constante e sobrepõe-se a tudo causando uma distorção da realidade é sinal de que a situação merece atenção. A pessoa fica desacreditada, primeiro pelos mais íntimos depois pelos amigos e por último nas relações sociais.

Por mentir deliberadamente, a vida de uma pessoa assim acaba por ser afetada em todos os aspectos: no trabalho, nas relações amorosas e familiares, nas questões financeiras.

Mesmo considerando que a realidade seja subjetiva, o que representa que cada pessoa tem a sua própria maneira de perceber o outro, o mundo e também de se perceber, existe uma distorção na maneira em que o sujeito se coloca que se evidencia. Nesse caso é preciso reflexão e quase sempre ajuda.

A necessidade de mentir compulsivamente está relacionada a um sentimento de inferioridade em relação ao valor que esse sujeito atribui às outras pessoas. Muitas vezes achamos que não somos exatamente aquilo que poderíamos ser, ou aquilo que esperam de nós. Nesses casos esse sentimento é vivido de uma maneira extrema e a realidade é sentida como insuportável.

O sujeito se vê tão pequeno e sem importância que cria para ele um outro completamente irreal e inatingível. Há uma supervalorização das próprias crenças como uma maneira de aplacar a angústia subjacente. É para sustentar essa distorção que o ato compulsivo de mentir cria um efeito: minto, logo existo.

Os fatos que levam alguém a esta condição são muito variados, mas a necessidade de atenção e cuidados, condição que talvez faltaram a estes indivíduos na infância, estão entre as motivações principais.

A baixa autoestima acaba desencadeando a compulsão de mentir sem nenhum motivo que o justifique.

A compulsão, seja ela por mentir, por comida, por bebida ou por drogas encerra em si mesma uma mentira, na medida em que longe de ser uma saída, distorce os problemas e a falta de amor próprio.

O pior que pode acontecer e o mais comum que aconteça, até mesmo pelo sofrimento, pelo desgaste causado aos familiares e pessoas de seu vínculo afetivo são a descrença e a confirmação que dá consistência ao sintoma: fulano é mentiroso, fulano só diz mentira, não dá prá acreditar em fulano…

Muitas vezes, a pessoa não se dá conta da profundidade de seu desequilíbrio. Contam-se histórias ao mesmo tempo em que se acredita nelas.

O sujeito só vai dar-se conta de que precisa buscar alguma forma de se implicar e de se ajudar, quando a mentira atrapalhar de verdade a sua vida, causando perdas muitas vezes irreparáveis.

Mas para que alguém possa se implicar, falar sobre seu sintoma de mentir é preciso, antes de qualquer coisa, que haja receptividade, uma disponibilidade autêntica que favoreça ao individuo, para que ele possa vir a compreender sobre sua verdade.

O sintoma é um porta-voz de uma verdade que pede para ser escutada.

Psicanalista Fátima Rabelo

26

de
outubro

E o tal do casamento?…

Já estou arrependido de mexer nesse assunto. O casamento é um dos temas mais complexos e controvertidos da existência humana, e apesar de todas as tentativas para entendê-lo sob vários pontos de vista, ele permanece um enorme mistério. Existem muitas receitas para ser bem-sucedido nessa empreitada, mas por mais interessantes que sejam, mesmo que se apliquem a alguns casais, elas nunca são convincentes. Imagino que isso ocorre porque as duas pessoas envolvidas, geralmente, mas nem sempre, um homem e uma mulher, partilham suas vidas de um modo tão único que um casal não pode nunca ser comparado com outro.  É como se elas secretassem uma substância que, misturada, adquire uma consistência ímpar, única.

Por isso, generalizações sobre o casamento têm valor limitado. Apesar disso, a maioria das pessoas casa e, o que é pior, muitas continuam, apesar das evidências em contrário, considerando o casamento como o caminho certo para a felicidade. Pois não é assim que as histórias infantis sempre terminam? O príncipe e a princesa são felizes para sempre?  Isso está arraigado na nossa cultura. Estou cansado de atender homens e mulheres solteiros que ficam paralisados na vida, esperando o casamento que lhes trará felicidade. Ao mesmo tempo, surpreende o número de casados, alguns até bem, que sonham em voltar a ser solteiros, nostálgicos de um tempo que passou.

Claro que existem casamentos com boa qualidade de vida das pessoas envolvidas. Aliás, tenho para mim que uma vez a pessoa crescendo e se separando de pai e mãe, o próximo relacionamento significante é o companheiro (a) estável. Mas esse relacionamento, como tudo mais entre os humanos, é instável mesmo e pode mudar de um momento para o outro, sem uma razão aparente para isso. Somos seres frágeis, incompletos e temos pouco controle sobre nossos relacionamentos e destino. Para dizer a verdade, não sei como damos conta de ir vivendo e enfrentando as coisas que aparecem fora de nossos controles.

Se formos pelos caminhos sofisticados da psicanálise e suas muitas variantes, podemos até imaginar as possíveis dimensões inconscientes que levam dois adultos, com histórias, biologias e famílias diferentes, escolherem morar juntos. Vocês já imaginaram a quantidade de conflitos psicanalíticos num encontro como esse? Mas existem outros pontos de vista: religioso, sociológico, econômico, sexológico, para apenas citar alguns entre milhares. Isto sem falar na motivação muito importante de procriação.

Outro dia fui num local público cheio de jovens. Fiquei maravilhado com casais enamorados e erotizado com cenas de amor se repetindo em minha frente. Percebi claramente como as pessoas crescem em busca do (a) companheiro (a).  Fantasiei acompanhar todos aqueles casais nas suas trajetórias pela vida. Quais seriam seus destinos? Quantos iriam descarrilhar?  Quantos casamentos iriam ser satisfatórios?  Quantos seriam trágicos? De volta para casa, passei por barzinhos lotados de jovens solteiros em busca de parceiros (as)…  O Eros solto na noite da cidade! Sem dúvida, estava ali, na minha frente, a explosão da adolescência e da vida jovem. Intensa!

Quando um (a) jovem chega à idade adulta enfrenta duas tarefas: escolher uma profissão e um (a) parceiro (a).  Alguns chegam lá mais depressa, outros têm uma adolescência mais prolongada, com maior ou menor frequência de mudanças de rumo. Nesses casos passam por um período de incerteza e de experimentação nem sempre muito agradável. Não existem regras imutáveis. Cada um tem o seu estilo, suas necessidades, mas eu poderia afirmar que de um modo geral todos buscam as mesmas coisas: o trabalho e o amor.

No caso da busca do amor, aparece frequentemente um dilema. Variar de parceiros ao mesmo tempo ou se contentar com um (a) de cada vez.  Penso, sem muita convicção, que depois dessa fase da experimentação, a maioria acaba se contentando com um (a) só porque descobre que a intimidade é diretamente proporcional à exclusividade. Vocês já ouviram dizer que quem tem muitos amores, acaba não tendo nenhum? Ou será que estou enganado?…

Com o progresso na tecnologia, o processo de busca de um companheiro entrou no mundo da cibernética. O antigo “footing” na praça da minha juventude se transformou em sites de relacionamentos. Alguns são tão sofisticados, que tentam acasalar pessoas de acordo com seus perfis. Um conhecido me ensinou que esse processo tem certa sequência: primeiro a conversa informal, depois, se há interesse, outros “encontros cibernéticos”.  Se o interesse continua, vêm os retratos… Se isso passar pelo teste, os telefonemas. Eventualmente um encontro pessoal, que eu acho deve sempre ser em lugar público, durante o dia. E ele enfaticamente recomenda: nenhum encontro antes de pelo menos um ano de conversa na Internet! Ele me deixou perplexo quando disse que nenhuma das companheiras que ele encontrou pessoalmente, dentro desses parâmetros, o surpreendeu.

Fico matutando por que algumas pessoas encontram logo o seu (sua) parceiro (a) e outras demoram a encontrá-lo (a), prolongando uma adolescência pela vida afora, alguns nunca chegando lá.  Será que inconscientemente elas permanecem ligadas ao pai ou mãe, não havendo espaço para outros ocuparem seus lugares?  Sempre achei a escolha do parceiro (a) uma coisa fascinante. Vocês já pensaram como isso é delicado e depende tanto da sorte? Imagino que num determinado momento, se olhamos para uma pessoa no mundo no meio de milhões, deve existir um número muito grande de gente que seriam ótimos parceiros para ela. Eu não sou dos que acreditam que cada pessoa só tem uma escolha de homem ou de mulher em sua vida.

Vem agora a pergunta: o que mantém as pessoas casadas? Será que é o sexo? Nas gerações passadas dos meus pais e avós, talvez isso fosse o caso. O cenário social era completamente diferente de hoje. Especialmente para as mulheres, a sexualidade estava completamente dependente do casamento. Para os homens isso era diferente, eles só podiam manifestar a sua sexualidade com prostitutas. Isso tinha suas consequências: para as mulheres a severa repressão sexual e para os homens uma divisão mental entre as mulheres boas e as mulheres más (sexuais), ambas difíceis de serem corrigidas.

Hoje os costumes são outros. Para as mulheres já não é necessário casar para a realização da sexualidade. E para os homens a atividade sexual mais facilmente se integra com o amor. Hoje os jovens se expressam sexualmente com amor sem maiores dificuldades.  Assim, duvido que alguém queira se casar para poder expressar a sua sexualidade. Portanto, as razões para que duas pessoas queiram ficar juntas num contrato social devem passar por outros caminhos. E esses caminhos são infindáveis, cada caso é um caso. Existem casamentos que funcionam bem mesmo quando na área sexual deixam a desejar, especialmente os casais mais velhos.  Ter um aliado (a) na vida continua sendo uma grande motivação!

O casamento exige um equilíbrio em meio a mudanças constantes. As pessoas se escolhem porque estão num nível semelhante de desenvolvimento, às vezes ainda bem imaturas.  Depois, elas crescem emocionalmente e envelhecem com velocidades diferentes. Um pode começar a crescer, seja espontaneamente, seja através de ajuda profissional, mais depressa do que o outro, que vai então ficando para trás.  Com isso o relacionamento vai deteriorando. É por isso que, geralmente, se um parceiro começa a fazer uma terapia quase sempre fica claro que o outro deveria seguir o mesmo caminho. Às vezes isso implica também numa terapia do casal.

Numa terapia de casal, os parceiros podem crescer juntos, mas o processo é sempre mais lento e difícil e os resultados nunca são imediatos. E preciso haver muito interesse e boa vontade de ambas as partes para que ela progrida, progressão essa que não é linear. Ela vai com três passos à frente e dois para trás. Não é possível abordar um casamento de uma maneira teórica e abstrata. Isso porque o relacionamento é muito peculiar e único e tem a ver somente com as duas pessoas envolvidas. A esperança é que o terapeuta de casal não tenha a necessidade de colocar o casal dentro de uma grade teórica pré-estabelecida…

Não é por falta de tentar que alguns casamentos desequilibram. Ninguém gosta de separar. Isso é sempre doloroso, para não falar nas sensações de culpa e fracasso.  Mas, quando o relacionamento marital fica deteriorado além de certo ponto, a separação, se possível consensual, passa a ser o melhor remédio. Mas isso, já é outro tema…

Psicanálista Márcio V. Pinheiro.

14

de
setembro

A Droga Faz o sujeito Ou o Sujeito Faz a Droga?

Desde épocas remotas, o emprego de substâncias psicoativas está presente em rituais religiosos, na medicina, nas formas lícitas ou ilícitas do ser humano buscar alívio para a inevitável dor de existir.

Consumir drogas corresponde a uma prática humana, milenar e universal. Não existe uma sociedade sem drogas, sendo o padrão, o tipo de droga, a frequência do seu consumo um revelador das crenças, valores e mitos que compõem cada sociedade.

Em o “Mal-Estar da Civilização”, Freud apresenta como tese o fato de a cultura produzir um mal-estar nos seres humanos, visto que para se viver em civilização, tem que haver uma  renúncia das satisfações pulsionais para que as regras sociais sejam sustentadas.

Só existem leis pelo fato de que há em nossa constituição psíquica, algo que foge a regulação. Esse algo, em Freud se chama pulsão, uma energia que faz ponte entre o somático (corpo) e o psíquico, sendo o seu objetivo único satisfazer-se, não importando de que maneira.

Podemos então pensar nas com-pulsões, nos atos sem mediação simbólica, sem pensamento. Portanto, para Freud, o desamparo do ser humano não resulta apenas das agruras do contato com o mundo exterior, surge do interior do próprio ser, do que há de insuportável na intensidade das pulsões.

Nesse sentido, a civilização travaria uma luta constante contra o homem isolado e sua liberdade, substituindo o poder do indivíduo pelo poder da comunidade. Isso representa que cada um de nós está submetido às leis.

A vida social só é possível a partir de certa regulação das pulsões que ocorre através da renúncia ao desejo de cada um, que é no íntimo, o desejo de fazer valer a sua própria lei.

Freud ainda enumera uma série de métodos para obter prazer e evitar desprazer, por exemplo, através do isolamento, da sublimação, do amor, do delírio e da religião, alguns desses recursos são valorizados pela nossa cultura por estarem de acordo com os nossos ideais de civilização.

No entanto, o autor destaca a intoxicação como um método mais grosseiro e também mais eficaz, por ser capaz de comover a nossa corporeidade.

A toxicomania, “mania de intoxicar,” é a maneira mais grave na utilização de drogas,  pois implica uma escravidão do individuo diante da droga, que se torna um objeto de prazer percebido como necessidade.

Justamente por ser vivido como necessidade é que a sua utilização assume o comando da vida do sujeito. O excesso de satisfação extraída na relação do sujeito com a droga que elege é tão marcante, que passa do prazer para o desprazer e do desprazer para a destruição.

No entendimento da psicanálise, o sofrimento ameaça o ser humano a partir de três direções: - de nosso próprio corpo condenado ao envelhecimento e a dissolução; - do mundo externo com as suas forças opositoras; - e de nossos relacionamentos com os outros homens.

O relacionamento com o outro foi considerado não só por Freud, mas por outros pensadores, o sofrimento mais penoso. Relacionar com o outro não é sem desencontro, sem desconforto ou mesmo sofrimento. O ato de se drogar seria uma forma de acessar um tipo de gozo que não passa pelo outro. Não passa pela relação com o outro, pelo corpo do outro. Ao contrário, é uma maneira de gozar que abre mão desse outro.

É um gozo que passa pelo próprio corpo, um gozo auto-erótico, um gozo celebrado no casamento do sujeito com a droga.

O gozo para a psicanálise é tudo que visa a uma totalidade, que envolve um excesso, ultrapassa o prazer e provoca sofrimento. Nessa perspectiva, a busca de se drogar seria uma tentativa de viver em estado de completude, forjando um estado onde “nada falta”.

O uso de drogas seria uma tentativa de suspensão da existência frente a dor de existir. A intoxicação seria uma forma de suportar o mal estar necessário imposto ao ser humano na vida em sociedade, da impossibilidade de estar em completude com o outro como gostaria a nossa fantasia.

É importante considerar que a relação dos indivíduos com as drogas não é linear.  Existem várias categorias, como o uso eventual, o uso abusivo e a toxicomania.

A diversidade de compreensão sobre a natureza do uso de drogas reflete, por sua vez, nas dificuldades que o tema implica, visto que não existe uma única razão que se aplique à todas as pessoas, para explicar o uso de drogas.

É importante considerar o contexto histórico e social que determinam as significações da droga, bem como a escuta da história particular de cada individuo. O uso de drogas deve ser pensado para cada caso.

A escuta psicanalítica visa “des-colar” desintoxicar o sujeito do significante “droga”, pois o consumo de substâncias psicoativas não diz somente da substância em si, mas também do efeito dessa nomeação que “com-some”, apaga o sujeito. “Sou dependente químico” ou “sou drogado” cria uma identificação para o sujeito que irá se valer dessa nomeação, ou seja, ele é isso!

Na medida em que a droga é valorizada como a causa do apego e da dedicação do individuo, não há lugar para escutar as características do funcionamento subjetivo desse sujeito com a droga. Ocorre um eclipse da possibilidade do sujeito vir a responder da sua posição em detrimento da evidência da droga.

Escutar a dependência do sujeito seria a mesma coisa que escutar o sujeito da dependência?   Ou ainda, a droga faz o sujeito ou o sujeito faz a droga?

Fátima Rabelo - Psicanalista

2

de
agosto

É TUDO OU NADA?

Com todo o aparato tecnológico, com o avanço da ciência, da medicina, é inegável: a perspectiva de vida aumentou.

No entanto, ao mesmo tempo em que aumenta a chance de vivermos mais, somos tomados por um discurso midiático que, paradoxalmente, concebe signos, atualmente tidos como valores, definidos a partir de critérios de beleza, de sucesso, de juventude, de saúde.

Em uma sociedade marcada por ideais narcísicos e interesses individualistas, sentimentos de inadequação são cada vez mais frequentes.

De alguma maneira somos capturados por essa realidade. Dificuldades encontradas na vida profissional, nas relações sociais e afetivas, sempre fizeram parte do contexto humano. No entanto, situações que no decorrer da vida dizem respeito a limites, podem hoje representar novas formas de sofrimento.

A mídia cria imagens que alimentam desejos impossíveis. Imagens de uma vida plena, perfeita,  sem frustrações, pode ser comparada à busca inconsciente de uma fantasia, um retorno a uma época em que cada um, quando criança reinou, investido pelo narcisismo dos pais.  Fábula de um paraíso para sempre perdido e procurado, nostalgia de um tempo idílico.

Se para Fernando Pessoa – navegar é preciso, viver não é preciso- renunciar a idéia de completude é vital.

Des-completar, além de fazer suas marcas, é um trabalho de vida.

Desde a nossa mais tenra infância, estivemos em situações em que acreditávamos ser o centro do universo e tivemos que viver frustrações e desapontamentos.

Verdadeiras oportunidades que muitas vezes podem ter nos levado a novas direções. Rumos que nos favoreceram a bancar novos desejos e a sustentá-los.Outros no entanto, machucaram tanto a nossa alma, que nos fizeram reféns. Os discursos  que a nossa sociedade de consumo produz vão de encontro a essas feridas.

Quando nos deparamos maciçamente identificados a esses discursos, ficamos capturados a eles em uma posição de servidão. Perseguimos uma idéia de que existe uma vida plenamente feliz, sem frustrações, que iremos encontrar o amor perfeito, o sucesso, a plena realização. E o pior: que ainda não estamos lá ou ainda, olhando para trás, não chegamos lá.

Estamos mergulhados no excesso de tudo. De comida, de bebida, de dietas, de juventude, de drogas, de auto-ajuda, da extrema visibilidade do corpo, da obrigatoriedade do sucesso e da felicidade.  Apelos tão diversos e dificultosos que são, na maioria das vezes, uma missão impossível.

Na tentativa de corresponder a esses apelos, o sujeito acaba por inverter a lógica, colocando o fracasso do seu lado, não vendo a verdadeira impossibilidade dessas ilusões.

Quando o sujeito, ao não corresponder se julga fracassado, torna-se, na mesma medida, motivo de busca obsessiva ou de depressão. O corpo encontra voz nos distúrbios alimentares, nos excessos de malhação, nos excessos de plásticas que chegam ao ponto de desumanizar a aparência. É “preferível” a desumanização da fisionomia do que o envelhecimento.

No campo da ação, há os que fazem valer a risca o provérbio – tempo é dinheiro - acrescido de sucesso e visibilidade. Concentram a vida de tal forma no trabalho, que não vivem nada além de trabalhar, não investindo em outros aspectos importantes da própria vida.

A voracidade sustenta o gozo, não permitindo a vivência do prazer e da intimidade. São marcados por um nada é o bastante.

No outro lado da moeda, os apáticos, sem motivação, ocupam o lugar dos sem lugar. A depressão é uma experiência marcada pelo vazio, pelo sentimento de impotência em relação à vida.

Na realidade não existe uma divisão dessas modalidades de queixas e sofrimentos, é só uma maneira de facilitar o reconhecimento dessas questões.

É muito difícil radicalizar entre apenas duas possibilidades: ou o sujeito corresponde ao impossível de lidar com infinitas possibilidades ou se vê como carta fora do baralho. As duas posições são angustiantes.

Tanto a obrigatoriedade quanto a impotência geram muita culpa e uma constante inadequação. A lógica onde eu tudo sou ou eu nada sou, é puro sofrimento.

Fátima Rabelo – Psicanalista.

15

de
junho

Separações e Superações.

É comum, quando falamos em separações, pensarmos quase que exclusivamente do ponto de vista de uma relação amorosa. Talvez por ser o nascimento, nossa primeira experiência amorosa e, também, nossa primeira experiência de separação. O corte do cordão umbilical, ao mesmo tempo em que marca a nossa entrada no mundo, marca também a nossa separação do corpo materno.

Há um longo percurso na vida de todos nós, desde a fusão inicial com a mãe até alcançarmos certa independência. O percurso, como todo crescimento, envolve transformações de um estágio ou de uma situação anterior a algo desconhecido. Nosso corpo é pura expressão dessas transformações.

Nesse processo, a própria vida parece nos impulsionar num movimento paradoxal entre dependência e autonomia. E sempre haverá conflitos entre o desejo de um porto seguro e o desejo de liberdade.

Diante de circunstâncias fundamentais da vida, cada pessoa se posiciona de acordo com seus anseios, seus desejos e temores mais profundos, o que as fazem únicas.

Para alguns, mudanças significativas podem gerar respostas criativas: aceitar desafios, terminar uma situação que não permite nenhum crescimento, encarar riscos, pode ser estimulante, pode representar enriquecimento da vida.

Para outros, no entanto, separar de algo conhecido, de um relacionamento mesmo que infeliz, de um trabalho sem motivação ou de qualquer situação limitadora, pode gerar muito sofrimento, chegando mesmo a imobilizar a pessoa em um sentimento de profunda impotência.

Em geral, é difícil não haver nenhum sentimento de perda em mudanças que são significativas. A maior ou menor dificuldade em superá-las nos remete aos nossos primeiros vínculos afetivos, às nossas primeiras angústias de separação, que se presentificam na vida adulta.

O que nem sempre nos damos conta é que do nosso nascimento até o amor maduro e o trabalho, muitas etapas foram superadas.

Separamo-nos da nossa infância, dos nossos pais, de velhos sonhos, de velhos amigos, de tantas ilusões. Separamo-nos de nossos filhos, de nós mesmos, da nossa juventude. Separamo-nos inúmeras vezes.

Revemos fotos, nos vemos e não nos vemos mais naquela pessoa. Rimos e choramos da dor e da delícia de sermos e não sermos mais o que está ali.

Um paradoxo da nossa existência que é muito bem traduzido na canção de Milton Nascimento e Fernando Brant: (…) chegar e partir são só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também despedida…

Se as dores do viver não podem ser evitadas, podem ao menos ser atravessadas de maneira mais criativa e inteligente. O sentimento de vulnerabilidade que acompanha toda a nossa existência pode muito bem nos levar a descobrir um jeito de dar valor positivo a nossa inevitável fragilidade humana.

Psicanalista Fátima Rabelo.

20

de
maio

O corpo feminino, menopausa e desejo.

“não somos nosso corpo em carne e osso,

somos o que sentimos e vemos de nosso corpo.”

J.-D. Nasio

O corpo feminino sempre foi percebido e significado de acordo com a cultura de cada época. Visto, inicialmente, como insuficiente em relação ao corpo masculino, teria como contraponto o poder da maternidade. A sexualidade feminina ficou, dessa forma, associada, como algo inerente, natural, apenas à função de procriar. Qualquer mulher que tivesse o seu desejo fora desse contexto era considerada “anormal”.

Somente a partir do advento da pílula anticoncepcional, nos anos 60, as mulheres puderam separar prazer de reprodução sexual e criar outras representações para o desejo que não fosse restrito à maternidade. Contudo, outras formas de controle surgiriam.

A ditadura contemporânea é não envelhecer. A obrigatoriedade da juventude aliada ao corpo magro, discurso que predomina hoje, passa a conviver com uma realidade mais que atual: o aumento da longevidade.

Ora, se deixar de reproduzir sempre esteve associado ao envelhecimento, como entender o corpo feminino nesses novos tempos?

Entrar na menopausa ainda é motivo de conflito e tristeza para a maioria das mulheres. Não só pelas alterações hormonais causadas, mas pelos significados atribuídos a esse período da vida. Durante muito tempo, a menopausa não significava apenas o fim da fecundidade, mas também da feminilidade.

Em seu livro “O Complexo de Jocasta: a feminilidade e a sexualidade sob o prisma da menopausa”, a psicanalista Marie-Christine Laznick considera que se saber possuidora da fertilidade, da capacidade de conceber, sempre representou poder e juventude para as mulheres. No entanto, há uma confusão entre o fim da capacidade de reproduzir com ter chegado ao envelhecimento propriamente dito. Por que menopausa e velhice? Segundo a autora, a capacidade de procriar, enquanto existe na mulher, constitui uma fantasia de obstáculo à morte.

Em um congresso intitulado “A representação da mulher menopausada”, Laznick relata ter sido a única presente que ficou espantada ao observar que menopausa e velhice eram tratadas sem intermediação, o que supunha um salto de pelo menos vinte e cinco anos entre uma situação e outra.

No imaginário social, ainda predomina a ideia de que as pessoas, a partir de determinada idade, deveriam estar acima do desejo sexual. No entanto, a distância que há entre o início da vida sexual e a menopausa é quase a mesma que existe entre o início do climatério e o envelhecimento propriamente dito. Ao atingir o fim do período reprodutivo, há um processo psíquico correspondente às mudanças corporais que não quer dizer ter chegado ao fim do desejo sexual.

O “Complexo de Jocasta” apontado pela autora diz respeito à posição de muitas mulheres que, ao renunciar ao próprio desejo, passam a viver exclusivamente em função dos filhos adultos, muitas vezes, criando problemas para ambos.

Voltar-se para a vida dos filhos exatamente no momento em que perdem a função de reproduzir é uma maneira de silenciar o desejo. São mulheres que desistem a tal ponto de sua posição feminina que se escondem atrás do escudo “mãe” como uma maneira eficiente de mortificar a própria vida.

A ideia da menopausa como fim da feminilidade e não apenas da fecundidade aliada à ditadura da imagem faz com que muitas mulheres se coloquem como carta fora do baralho. Mesmo quando ainda têm ou podem vir a ter um companheiro.

Viver o desejo, na verdade, fala mais da capacidade lúdica, da fantasia, de sustentar um certo semblante que há no jogo dos que se mantêm desejantes.

Psicanalista Fátima Rabelo.

22

de
abril

O QUE O RESSENTIDO NÃO PODE ESQUECER.

O ressentimento é um veneno que tomamos esperando que o outro morra. (Shakespeare)

O ressentimento é um sentimento sempre avassalador na vida de qualquer pessoa. Uma dor permanente que aprisiona e paralisa. Não se trata aqui de situações em que a pessoa é mesmo vítima de injustiças, sejam elas sociais ou relacionadas à experiência de perdas dolorosas sobre as quais não se tem nenhum poder de intervenção. Trata-se de uma determinada maneira de ser nas relações.

Muitas vezes, ressentir-se pode significar atribuir unicamente ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Ao atribuir o seu sofrimento a um outro, o individuo ressentido estabelece uma servidão inconsciente, concentrando-se e ampliando seu sofrimento, numa espécie de auto-intoxicação permanente.

(re) sentir é sentir novamente, uma constante atualização da situação passada. A psicanalista Maria Rita Khel, em seu livro Ressentimento, define o ressentido, não como alguém incapaz de esquecer, ou de perdoar, mas alguém que não quer perdoar, não quer deixar barato o mal que o vitimou.

Leve ou mais profundo, o ressentimento possui uma característica que pode se constituir numa armadilha para a vida do indivíduo: tornar-se escravo da sua impossibilidade de esquecer e, portanto, de se abrir para o novo.

O que o ressentido não pode esquecer, o ponto exato onde o nó se atou é, na realidade, a sua falta de posicionamento no momento certo. E, na ausência de um ato, a pessoa se congela numa posição de fragilidade, de certa covardia moral.

Por não ter assumido uma posição perante o outro que o vitimou, ele passa a vida a ruminar, em um esforço psíquico, para se manter na posição de vítima privilegiada, não se responsabilizando por suas escolhas. O que geralmente não é percebido é que há um ganho secundário em se manter na posição de ofendido. O bonzinho, o que não responde pode, na verdade, ser aquele que não se implica. Que se exime de sua responsabilidade nesse ou naquele desfecho.

Mas o ressentido tem ainda outra faceta curiosa: quando vem de uma boa ação e não de uma ofensa. Quantas vezes já não escutamos histórias de pessoas que de uma maneira ou outra ajudaram outras pessoas, e, ao invés de receberem gratidão, acabaram por colher ressentimentos.

Na verdade, a posição de ser ajudado, pode aguçar no indivíduo um sentimento de inferioridade, de valer menos que o outro. Sentindo-se inferiorizado em relação à posição de superioridade que supõe a quem o ajuda, pode criar um sentimento de

ressentimento justamente contra quem o ajudou.

Na ofensa ou na posição de ser ajudado, o ressentimento pode ser muitas vezes a dor que sentimos ao perceber a nossa falha, a nossa impossibilidade, que, por alguma razão, não demos conta de nos implicar.

Quem sabe, o que o ressentido não possa esquecer é de tentar entender qual é a sua participação naquela dor.

Psicanalista Fátima Rabelo.

8

de
abril

DESISTIR ou “DES-EXISTIR”?

A vida, na modernidade, era marcada pela estabilidade, previsibilidade e consistência. A cultura orientada pelo patriarcado mantinha uma ordem rígida, em que o lugar e o papel de cada sujeito naquela sociedade eram definidos por relações hierarquizadas, verticais. A família, a empresa, a nação eram estruturas organizadas à maneira de uma pirâmide.

O mundo girou. O avanço da tecnologia sem precedentes na história da humanidade gerou novos modelos de relações horizontalizadas, globalizadas, o mercado é a lei. Uma infinita gama de possibilidades de toda ordem deixa ao indivíduo a condição de escolher e fazer o seu destino. Se antes o preço a se pagar era a rigidez das normas sociais, a repressão da sexualidade que gerou tanta neurose, hoje, o ser humano pode tudo e, ao mesmo tempo, se vê só, desamparado.

Nesse “tudo poder”, muitos nada querem. Se antes os desistentes de qualquer propósito em suas vidas podiam ser vistos como pessoas de baixa tolerância à frustração, hoje precisamos, quem sabe, globalizar a nossa percepção ao falar desse sintoma. Desistir de trabalhar, de amar, de viver, há muitos que se encontram nessa posição.

O que não se sustenta nessa “vontade de nada”? A vida tornou-se limitada ao fazer. A exigência de uma produtividade sem limites, aliada ao excesso de possibilidades, priva o sujeito do tempo de construir a experiência. A urgência da vivência imediata sobre a experiência produz um sentimento de vazio. Tudo é vivido no apelo do imediatismo, sem adiamento.

Não há tempo para reflexões, devaneios, sonhos, fantasias e assimilações das experiências, que são processos importantes para o funcionamento psíquico.  É um modo de viver em uma espécie de predomínio do presente. Sem atalhos, sem recortes, sem simbolização, uma reta cibernética.

Há os que se fraturam. O sujeito entra em uma experiência de vazio existencial, de dor de viver, de tédio. A “saída”, muitas vezes, é a depressão, mas quando o sujeito não se sucumbe a ela, ele se defende do sofrimento por meio de atuações.

Drogas, álcool, sexo e rock’n roll! virtual ou na crueza do real. A oferta é grande! Para todos os gostos e bolsos e de acordo com a lógica em que o sujeito goza. Goza e sofre. Para a psicanálise, o gozo da pulsão de morte é da ordem do que supera o prazer, é da ordem do transbordamento, do aniquilamento, do que excede.

Com tanta tecnologia, que certamente nos proporciona acesos incríveis, mas que não muda a nossa condição de finitude, para alguns, viver ficou ainda mais perigoso. Se com a morte nada temos a fazer, viver é por nossa conta e risco.

O psicanalista Hélio Peregrino, ao ser questionado, por Clarice Lispector, por que escrevia tão pouco já que era um grande escritor da alma humana, respondeu: “a gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é manter-se vivo e – exposto à morte. Escrevo menos do que deveria para – quem sabe? – manter a ilusão de que tenho um longo tempo pela frente”.

Na recusa de responder à demanda desse “tempo que urge”, talvez possa o sujeito  fazer de seu vazio não um tédio angustiante ou uma fadiga de viver, mas, quem sabe, uma resposta criativa à recusa dessa velocidade, em um tempo de nascer, de renunciar ao nirvana, de sair do líquido amniótico da desistência.

Psicanalista Fátima Rabelo.

24

de
março

De Volta para o Presente

Felicidade. Que lugar é esse? Onde fica? Dos livros de autoajuda aos discursos da saúde, da eterna juventude e beleza, a maioria de nós passa a vida buscando a tal felicidade.

Diferentemente de outros momentos na história da humanidade, em que as questões relativas à felicidade se encontravam atreladas às questões filosóficas e existenciais, hoje o apelo pelo consumo é o que promete nos fazer feliz. A idéia de que se alcança a felicidade com a satisfação de todos os nossos desejos mostra a armadilha do sistema capitalista.

A psicanálise entende que o desejo não é da mesma ordem da necessidade. Enquanto a necessidade é biológica, natural, e, portanto, visa a um objeto definido, o desejo é psíquico. Se tivermos sede, bebemos um copo de água e a tensão pela sede se aplaca. No entanto, com o desejo é diferente: a gente namora aquele carro, faz mil fantasias, e, enfim, consegue comprá-lo. Pouco tempo depois já nem nos lembramos de mais que temos. E, daí a pouco, você quer fazer a viagem de sua vida. Você viaja (e é sempre muito bom viajar), mas logo ficarão apenas algumas fotos e lembranças.

Tudo isso é muito bom. O carro, a viagem e tantas coisas mais, mas nada disso tem a ver com felicidade. Pelo menos não nos moldes do que na nossa fantasia, almejamos alcançar. Quanto mais consumimos, mais temos nos sentido consumidos e vazios. E assim a nossa batalha pela felicidade vai nos remetendo cada vez mais, para um lugar diferente daquele já atingido.

O desejo é um hiante, um vazio, que assume aparências diferentes para exercer o seu feitiço. É uma força psíquica que nos impulsiona, nos faz sair do lugar. Ele nasce da fantasia de que um dia alcançaremos o paraíso, por acreditarmos, inconscientemente, tê-lo perdido.

Queremos completude, que absolutamente nada falte. Essa é nossa grande utopia. Em seu livro, A Felicidade Desesperadamente, o filósofo André Comte-Sponville coloca essa questão de uma maneira profunda e interessante. Ele usa o termo desesperadamente não no sentido que nos seria comum pensá-lo, como desespero, mas como des-esperar, ou seja, deixar de esperar. Nesse sentido, a esperança representaria impotência à medida que impinge um olhar não só para o que não se tem, mas em uma posição de espera. O interessante, na verdade, é querer o que se tem.

Para a psicanálise, o desejo é aquilo que nos falta e que jamais vai coincidir com o objeto, o ponto de encontro com a des-esperança. Talvez seja o que Freud já havia sublinhado: se neuroticamente sofremos mais do que na verdade precisamos realmente sofrer e chegássemos a sofrer o que é inerente à vida, já teríamos conseguido muito.

Para Sponville, sair da queixa neurótica seria desejar o que não nos falta, o que podemos ter.

Sofremos de reminiscências  -ora a falta se desloca para o passado e queixamos nossas perdas, ora nos deslocamos para o futuro em um vir a ser quase sempre muito idealizado e inatingível. Como diria Woody Allen: “como eu seria feliz se eu fosse feliz”!

Psicanalista Fátima Rabelo.

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